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O desterro de Virgolino

por manuel gouveia, em 07.03.09

 

A Segurança Social chegou ao fim da tarde e esperou pela mãe. Entregou-lhe a notificação do tribunal de menores: Virgolino deveria ser confiado aos cuidados de uma instituição. Fora a denúncia de uma vizinha que determinara aquela acção cautelar.
Virgolino foi arrancado ao colo da mãe, os seus braços não foram suficientemente fortes para se manter agarrado ao seu pescoço. Partiu em gritos lancinantes de mamã, mamã, eu quero a minha mamã… mas nada o podia acudir. Uma das auxiliares correu e deu-lhe o seu boneco preferido, um homem aranha, para que a ruptura com o seu mundo não fosse total e levasse consigo um pouco de carinho, um talismã que o protegesse no seu sono. Uma âncora para a sua felicidade.
E para trás ficou a mãe com a notificação do tribunal nas mãos, que não podia ler, porque nunca chegara a aprender; ela nunca tivera a oportunidade que tentava agora dar ao Virgolino. E temia pela reacção do marido quando a visse chegar a casa sem o filho.
A Instituição ficava num concelho vizinho e o Virgolino foi integrado noutro jardim de infância. Tudo lhe parecia diferente e ameaçador. Explicaram-lhe que tinha sido uma decisão dos crescidos e para o seu bem, mas ele só pensava que o problema estava na pobreza da sua mãe. E perguntava pela mãe, Ela vem amanhã, respondiam-lhe. Mas a mãe não vinha.
A mãe tinha medo de se perder, de não se entender com os transportes públicos e não tinha ninguém para a ajudar. E Virgolino desfalecia de solidão e abandono. Já não tinha consigo o seu homem aranha, companheiro de infortúnio, que lhe vigiava o sono. Foi-lhe roubado por um dos internos mais velhos. Perdera o seu confidente e amigo.
A mãe apareceu ao terceiro dia, trouxe-a a educadora do projecto de intervenção precoce e Virgolino abraçou-se a ela para nunca mais se separar, mamã tu encontraste-me! Mas a mãe não podia ficar com ele, essa era uma decisão dos crescidos.
E Virgolino sentava-se nos degraus que davam para o recreio e apertava as mãos contra o peito como se ainda segurasse o seu homem aranha, e as empregadas passavam por ele e diziam-lhe, vai brincar com os outros e deixa de ser paspalhão.
E ele murmurava baixinho, sem ninguém para o ouvir: - O Vi vai ser astaunata!
 
(A condenação de Virgolino)

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A condenação de Virgolino

por manuel gouveia, em 04.03.09

Branco e negro. Normal ou deficiente. Virgolino é uma criança feliz, mas acima de tudo é uma criança.

 
Vive numa casa de uma só divisão com os pais e uma irmã de meses. O pai arrancou a porta que dá para o quintal para poder vigiar os animais, principalmente durante a noite. Faz muito frio na casa de Virgolino.
Virgolino é inteligente mas tem um défice ao nível dos mecanismos de aprendizagem e um vocabulário reduzido devido à falta de estímulo, fruto de uma mãe débil mental e de um pai alcoolizado. Mas Virgolino adora a mãe e a irmã.
Segunda-feira, Virgolino está no Jardim de Infância da Santa Casa, recebe a educadora do projecto de intervenção precoce (PIP) com um pão em cada mão e uma caneca de leite encostada ao peito. Brinda-lhe com um sorriso rasgado: - Guida, o Vi já tomou banho!
A educadora do PIP, não vai trabalhar com o Virgolino, que não precisa de apoio especializado, apenas lhe lança um olho, para verificar como ele está e como foi o seu fim de semana, se lhe deram de comer ou banho (o que nunca acontece e assim se transformou, no infantário, numa rotina de todas as manhãs de segunda-feira). Vi precisa de alguém que acompanhe a mãe às consultas no centro de saúde, que a ajude a preencher os papéis do RSI, que proponha os pais para as acções de formação, que promova junto deles as competências parentais, e garanta que a sua irmã de meses não é negligenciada. Alguém que o vigie no seu percurso escolar e garanta a sua transição para o primeiro ciclo.
 
Vi recebe dos pais todo o amor que não conseguiria numa instituição de acolhimento. Vi é estruturante para a sua família.
 
Mas o ministério da educação quer as coisas preto no branco e Virgolino não é deficiente! Para o ano o Virgolino vai perder o apoio da equipa de intervenção precoce, e assim também a sua irmã e os seus pais.
Para o ano ninguém vigiará a higiene de Virgolino, garantirá que ele receberá os cuidados médicos apropriados, ou explicará à sua mãe que deve manter a casa limpa e dar banho à irmã. Para o ano Virgolino estará condenado à miséria dos seus pais.
 
Virgolino lança um último olhar à educadora do PIP e de dedo esticado, aponta o céu e anuncia: - Guida, o Vi vai ser astonauta!
 

(o desterro de Virgolino)

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