por julieta-ferreira, em 15.08.11
Nunca tinham visto a vida. Deixaram a porta aberta para a vida entrar, ainda que os adultos dissessem que as portas tinham de ser aferrolhadas.
A vida é madrasta. A vida é ruim. A vida é difícil.
No hospital, tinham visto os avós de corpos tolhidos, olhos fechados, rostos sem brilho. E dentro do silêncio havia o barulho esquisito de uma máquina. Tinham ficado especados ali. Esquecidos.
Quiseram brincar com os tubos. Os pais enxotaram-nos, zangados. Fecharam a porta. Em casa, os pais falavam, em vozes gastas e eles, a um canto, perdidos. De repente, parecia que a vida se tornara importante. Valiosa e bela.
Desligar aquela máquina estranha com a qual eles não tinham podido brincar, era apagar a vida. Para sempre.
Então a vida estava dentro de uma máquina? Eles queriam aprender o que era a vida, onde estava a vida. Queriam que lhes mostrassem o que deveriam fazer para poderem brincar com a máquina, sem a estragarem, sem a desligarem.
Chegou o tempo em que brincaram muito com a vida, depois de ficarem a saber que, fizessem o que fizessem, ela estragar-se-ia. Mesmo que não fizessem nada, ela apagar-se-ia. Afinal, não estava guardada numa máquina. Estava por todo o lado.
A vida chegou-lhes, de várias maneiras, pela porta agora aberta, escancarada.
Foi assim que começaram a aprender os nomes para definir aquilo que iam sentindo, à medida que iam brincando com a vida.
Tanto tempo tinham esperado por aquele conhecimento e, afinal, para quê?
Os nomes só tinham servido para complicar tudo e os assustar.
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por Daniel João Santos, em 23.08.09
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