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O louco era um homem gordo que seguia em pé, na carruagem do metro, com a cara a desaparecer debaixo da pala do boné azul-escuro, anunciando em triunfo, antes de cada estação:
-Agora é o Intendente! Agora é o Socorro! Agora é o Rossio!
perante o olhar espantado e algo confuso dos outros passageiros, que logo desviavam os olhos e se fingiam distraídos, enquanto ele gritava, triunfante, um instante depois:
-Siga!
E logo, obedecendo, o comboio fechava as portas e recomeçava a andar.
E ele sorria, satisfeito, pelos cantos da boca, fingindo-se humilde e olhando sub-repticiamente de esguelha, porque não queria fazer alarde do seu poder.
Cadernos II - As águas livres, de Teolinda Gersão, Sextante Editora, 2013