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Ora aqui está o estudo pelo qual todos os homens (ou, pelo menos, muitos) tanto esperavam.
... para pedinchar atenção, venho aqui dar as boas notícias. Após uma reunião com a Directora-Regional de Educação do Alentejo, a comunidade de Santo Amador conseguiu manter a sua escola aberta, pelo menos por mais um ano.
Parabéns a Santo Amador, aos seus meninos e a todos os que recusam deixar morrer aquela terra.
As autoridades policiais apreendem em média, por ano, em Portugal, mais de cinco mil plantas de cannabis, com origem em cultivo doméstico. Não se compreende estas ações. Em tempos de crise o empreendedorismo e o regresso à agricultura, devia ser incentivado.
Existe em Portugal um setor snob que se considera acima do resto do povo. Um grupo que consegue escrever coisas como esta:
«... em vez de receção à chegada a Lisboa, sendo presenteado por várias pessoas com a má educação/disposição característica de muitos portugueses, chego a casa, ligo a tv e ainda se fala do Pingo Doce. Dá vontade de ir já embora outra vez. Adaptando a célebre frase de Edward Longshanks, "The problem with Portugal, is that it is full of Portuguese."»
Hoje estou de acordo com aquele membro do governo que incentivou o pessoal a ir procurar outros caminho fora do país. Se calhar o governante estava a pensar em indivíduos desta elevação que foram dar uma volta e no regresso vieram sozinhos no avião. Quando falo sozinhos, falo dele e do seu insuflado ego.
Na realidade o problema de Portugal não é estar cheio de portugueses, o problema de Portugal é estar cheio de portugueses destes. Estes são aqueles que supostamente têm nome, que supostamente pertencem à "alta sociedade". Acontece que estes são os portugueses que apenas têm o valor de me mostrar contra o que temos de lutar, de trabalhar e de reagir. Temos de lutar contra o snobismos instalado. Contra aquele que acha que o povo tem de pagar as dividas dos outros, que o povo tem de comer e calar, que o cidadão tem a obrigação de ser solidário com o coitado do empresário que tem milhões de lucro e se diz trabalhador igual aos outros.
E já agora, o problema deste país não é estar cheio de portugueses, o problema deste país é estar cheio de portugueses conformados com o sistema que se instalou.
O médico, o cura e o professor eram as pessoas mais importantes, durante os anos em que cresci e outros que se seguiram, até o 25 de Abril ter chegado àquela aldeia beirense. Levou o seu tempo, mas acabou por chegar. Tudo levava o seu tempo a chegar à aldeia. A bitola para aferir esses homens era o grau da sua vocação. Cuidavam, com zelo, dos corpos, das mentes e dos espíritos, não deixando de largar neles o verme de um disfarçado despotismo. O cura usava o poder nas dobras da batina, engomada a preceito pela Gracinda, moçoila rechonchuda, que comungava todos os domingos. O Padre Dionísio arregaçava a batina de pregas vincadas para sentir as nádegas frescas e macias da filha do Rufino contra a sua barriga flácida. E o Rufino badalava o sino, durante a Eucaristia, muito sisudo, na envergadura de sacristão, orgulhoso da sua prendada Gracinda. O professor usava o poder no ponteiro e na régua que deixava descair, quando menos esperávamos, e nos punha as palmas das mãos e os traseiros a escaldar ao rubro. O meu pai usava o poder no bastonete polido, que ele empunhava com nobreza, na curta caminhada diária de casa ao consultório, e servia para enxotar os indesejáveis. Todos eles eram homens bem vocacionados.
Um dia destes tive uma troca de ideias, na realidade foi uma resposta mesmo elegante de alguém que achou que eu o tinha tratado por "tu". Realmente é um problema gravíssimo tratar alguém por tu... quer dizer, em Portugal é. Num país como nós temos o tratamento é "Você", o senhor, o Doutor, o Engenheiro, o Professor e afins, é que deve ser.
Realmente o que interessa hoje em dia é o titulo. Sim, com o sabemos nas filas do centro de desemprego existe uma fila para licenciados e outra para os operários, mas enfim é o que temos.
Mas adiante. Voltemos à questão certa ou seja o "tu". Eu pelo contrário do senhor que se sentiu atingido pelo tu, eu sinto-me incomodado por não me tratarem por "tu". Não acredito numa sociedade pequena como a nossa separada por "vocês" e outros títulos plásticos. Acredito numa sociedade próxima, de convergência sobre um objectivo comum que é o país.
Quem quiser que continue no alto deu estadismo a olhar para os outros preocupados com as distancias. Eu por outro lado, quem quiser que eu lhe responda, quem quiser trocar ideias comigo pode tratar-me por tu. Além disso, eu só sou senhor quando não está ninguém em casa para mandar em mim.
Herdamos o sofrimento à nascença. É nossa companhia até à morte. Toma várias formas e expressa-se de várias maneiras. Contudo, há aquele sofrer que é tão comum e idêntico em todos os seres humanos, que se lhes cola às vísceras e chega-lhes a paralisar a mente. Esse é afinal o mais dispensável por não ter fundamento. Sofre-se em antecipado por aquilo que se imagina, por aquilo que é hipotético, por aquilo que possivelmente nunca chegará a concretizar-se. Mas, para muitos, retirar-lhes esse sofrimento, seria condená-los a viver uma vida para a qual não estão preparados.
Uma das desilusões que tenho sentido, após o meu regresso a Portugal em 2009, é a de assistir à homenagem da mediocridade e aperceber-me que, em mais de duas décadas de ausência, a maneira de ser, de pensar e de estar do povo português pouco mudou. Não se conseguiu libertar de certas amarras que vem arrastando consigo há séculos e continua a dar demasiado valor e importância ao supérfluo e às aparências, numa sociedade hierárquica, falha de coesão e de um genuíno sentido pátrio.
Sendo Portugal um país em que existe uma exagerada preocupação em formar "doutores", em que se usa e abusa o título a preceder o nome, assiste-se, cada vez mais, numa contradição que ainda não consegui entender, ao descrédito e desrespeito de uma classe que está à frente da educação escolar da nossa juventude.