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Tive,infelizmente, a oportunidade de verificar o sistema de funcionamento do hospital de São Sebastião. Depois de uma triagem, até que bem feita, fui enviado para a zona da Ortopedia e Pequena Cirurgia. Montes de gente: pulseiras amarelas, pulseiras verdes, crianças, idosos, válidos, inválidos, uns a sangrar, outros a descansar, outros a gritar, outros a dormir, gente a queixar-se, gente a conversar, muitos a desesperar, mas todos em cima uns dos outros. Do outro lado da porta, uns a atender, outros a trabalhar, alguns a entender a situação dos doentes e dois a passear. Ao meu lado queixava- se um individuo de pulseira verde que estava ali desde as três da tarde. Olhei para o relógio e eram 9 da noite.
- Desculpe, podia-me colocar outra compressa que esta já está cheia de sangue?
- Claro, venha cá - enquanto substitui a compressa, continuou a compreensiva enfermeira - sabe, já devia ter sido atendido, mas não temos aqui nenhum médico disponível.
Não foi muito: esperei 3 horas para ser atendido. Depois, já lá dentro, segui-se um rápido exame:
Primeiro médico: - Pode estar partido.
Dez minutos depois:
Segundo Médico: - Enfermeira coloque Betadine e uma gaze gorda.
- Mas este senhor não tirou raio X? Não é melhor suturar? Parece partido.
- Não, isso é um pouco profundo, mas basta uma gaze.
No final: 18 euros de taxa moderadora.
Depois desta, sai dali com o dedo feito num oito, vou tirar um raio x fora do Hospital e dar razão ao senhor PSD da Assembleia Municipal, que afirma o Hospital de São Sebastião como um paraíso.
Tendo familiares em Santa Maria da Feira, adquiri uma ligação afetiva a essa cidade, na infância e na juventude, em férias que lá passei e em inúmeras visitas aos meus tios e primos. Depois, as vidas tomaram outros rumos e, no meu caso, a ida para a Alemanha, em 1992, afastou-me de pessoas e lugares.
Felizmente há acasos que despertam coisas adormecidas dentro de nós. Há uns anos, escrevi o meu romance sobre D. Afonso Henriques decidida a explorar facetas desconhecidas do monarca. E descobrir que ele terá tido uma grande paixão, com quem terá pretendido debalde casar, foi quase como abrir uma caixinha de joias, de cuja existência ninguém desconfiava.
O nome da protagonista era Châmoa Gomes, uma relação que, aliás, parece ter acabado com o casamento do monarca. As razões perderam-se no tempo. Eu é que não podia perder a oportunidade! E, quando precisei de localizar uma cena decisiva, veio-me ao pensamento a imagem do castelo de Santa Maria da Feira, que tantas vezes visualizei, da varanda dos meus tios.
A decisão acarretou consequências agradáveis. Como já aqui tinha referido, Miguel Bernardes, um empresário feirense ligado à restauração, liderou o processo de criação e produção do licor de Chamoa, baseado nessa paixão de D. Afonso Henriques e tornado na bebida oficial da Viagem Medieval, que se realiza todos os anos em terras de Santa Maria.
Ontem, estive precisamente em Santa Maria da Feira e o Daniel guiou-me aos locais onde se vende o licor e se pode ler um pequeno excerto do meu livro. Fiquei com o tal brilho nos olhos, por ele aqui referido. E travei conhecimento com o próprio Miguel Bernardes, proprietário do Praceta Restaurante, onde adorámos almoçar. Entre outras delícias, o meu marido ficou maravilhado com o bife Praceta, servido com um molho que inclui chocolate e que prova o poder de criação do Miguel Bernardes. De entre as ideias que ele ainda apresentará, talvez arranje inspiração em mais algum dos meus romances…
Aproveito para agradecer mais uma vez ao Daniel o tempo que nos dispensou, proporcionando-nos um dia excecional, pois tivemos ainda oportunidade de apreciar o Teatro de Rua de Santa Maria da Feira, já que a nossa visita coincidiu com a edição deste ano.
Existe em Santa Maria da Feira um dinamismo cultural e empresarial admirável. Eventos como o Imaginarius e a Viagem Medieval, apesar de algumas questões que se pode criticar, são exemplos de uma procura de chamar pessoas, engrandecer culturalmente o Concelho e a sua dinamização. A este nível, repito que apesar de poder ir mais longe, Santa Maria da Feira está lá em cima no top.
A nossa Cristina Torrão, uma das autoras deste blogue, do blogue Andanças Medievais e escritora de vários romances históricos, esteve de visita a Santa Maria da Feira. Durante algumas horas, bem preenchidas horas, fiz de guia à Cristina e ao marido. Almoçamos no Restaurante Praceta e estivemos em vários locais emblemáticos de Santa Maria da Feira.
O que se passa então? - pergunta o leitor.
Um grupo de empresários da Feira criou um licor a que deu o nome de Chamoa.
E? - Reforça o leitor.
A inspiração do nome veio da leitura de romance da Cristina Torrão: Afonso Henriques - o Homem. Assim, em vários locais de Santa Maria da Feira, onde se pode comprar o licor Chamoa, está exposta uma passagem do livro da Cristina.
Foi com um brilho nos olhos que a Cristina percorreu os diversos locais e feliz pela forma com que foi recebida pelo criador do licor.
O 2711, mais uma vez, estará nas ruas de Santa Maria da Feira a acompanhar mais uma fantástica Viagem Medieval. Tentaremos trazer aqui fotos, vídeos e em particular os sons do evento.
Pelos vistos nem só do castelo vive Santa Maria da Feira. E agora que já provoquei um bocadinho o Daniel vamos lá fazer a visita.
Dez dias depois termina a Viagem Medieval em Terras de Santa Maria. Para o ano há mais e ainda bem.