por julieta-ferreira, em 05.02.12
Herdamos o sofrimento à nascença. É nossa companhia até à morte. Toma várias formas e expressa-se de várias maneiras. Contudo, há aquele sofrer que é tão comum e idêntico em todos os seres humanos, que se lhes cola às vísceras e chega-lhes a paralisar a mente. Esse é afinal o mais dispensável por não ter fundamento. Sofre-se em antecipado por aquilo que se imagina, por aquilo que é hipotético, por aquilo que possivelmente nunca chegará a concretizar-se. Mas, para muitos, retirar-lhes esse sofrimento, seria condená-los a viver uma vida para a qual não estão preparados.
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por julieta-ferreira, em 15.08.11
Nunca tinham visto a vida. Deixaram a porta aberta para a vida entrar, ainda que os adultos dissessem que as portas tinham de ser aferrolhadas.
A vida é madrasta. A vida é ruim. A vida é difícil.
No hospital, tinham visto os avós de corpos tolhidos, olhos fechados, rostos sem brilho. E dentro do silêncio havia o barulho esquisito de uma máquina. Tinham ficado especados ali. Esquecidos.
Quiseram brincar com os tubos. Os pais enxotaram-nos, zangados. Fecharam a porta. Em casa, os pais falavam, em vozes gastas e eles, a um canto, perdidos. De repente, parecia que a vida se tornara importante. Valiosa e bela.
Desligar aquela máquina estranha com a qual eles não tinham podido brincar, era apagar a vida. Para sempre.
Então a vida estava dentro de uma máquina? Eles queriam aprender o que era a vida, onde estava a vida. Queriam que lhes mostrassem o que deveriam fazer para poderem brincar com a máquina, sem a estragarem, sem a desligarem.
Chegou o tempo em que brincaram muito com a vida, depois de ficarem a saber que, fizessem o que fizessem, ela estragar-se-ia. Mesmo que não fizessem nada, ela apagar-se-ia. Afinal, não estava guardada numa máquina. Estava por todo o lado.
A vida chegou-lhes, de várias maneiras, pela porta agora aberta, escancarada.
Foi assim que começaram a aprender os nomes para definir aquilo que iam sentindo, à medida que iam brincando com a vida.
Tanto tempo tinham esperado por aquele conhecimento e, afinal, para quê?
Os nomes só tinham servido para complicar tudo e os assustar.
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por julieta-ferreira, em 14.08.11
O tempo governa as nossas vidas com a implacabilidade de uma presença constante. Limita-nos e condiciona-nos, fazendo alguns de nós seus escravos e mártires. Vivemos em função do tempo que faz, do tempo que dispomos, do tempo que nos falta, do tempo que nos sobra, do tempo que sonhamos vir a ter, do tempo que perdemos, do tempo que já passou, do tempo que ainda não chegou.
Somos apreciados pela nossa pontualidade, somos enaltecidos pela rapidez das nossas decisões, somos gratificados pela finalização de trabalhos, dentro do prazo estipulado. Esconjuramo-lo do mesmo modo que o abençoamos. Conhecemos a sua relatividade e, mesmo assim, admiramo-nos da forma como ele se faz sentir, em certos períodos da nossa vida. As suas pegadas, ora céleres, ora vagarosas, tanto nos causam júbilo como desespero.
Há os que gostariam de ter parado no passado e não se cansam de afirmar que no tempo deles é que era bom. Alguns prefeririam apagar um tempo que os fragilizou e os impede de viverem plenamente no presente; outros julgam possível ignorar o seu compasso rígido e contínuo, numa revelia que os leva a uma vivência caótica.
No entanto, qualquer que seja a situação, tanto em momentos de exuberância como de deplorável infortúnio, queremos sempre mais tempo. Achamos que nunca temos o tempo suficiente para vivermos e realizarmos o que nos propomos realizar, seja lá isso o que for. Não ter tempo é uma desculpa por demais conhecida, andando de boca em boca, nas sociedades modernas. É que, no mundo de hoje, de uma desenfreada tecnologia, onde tudo se movimenta a uma velocidade vertiginosa, há a expectativa de uma produtividade máxima, num tempo mínimo. Acabamos por viver o pouco tempo livre, de que dispomos, em stress, em vez de o aproveitarmos da melhor maneira. E quando sucumbimos à doença que encurtará as nossas vidas e nos privará desse tempo que tanto perseguimos, agarramo-nos, com unhas e dentes, ao pouco que nos resta, fazendo uso de todos os meios possíveis para o prolongar, adiando a sua paragem. Não há quem o detenha, quem o engane ou retenha. O tempo não é nosso aliado nem se compadece de nós pois, na realidade, não existe.
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por Daniel João Santos, em 26.09.09
Em tempo de reflexão, também se exige uma reflexão sobre o 2711.
De um projecto a solo de origem "Em 2711", o blogue cresceu para um simples 2711 juntamente com a entrada de vários autores e diga-se companheiros de caminho.
Sempre existe o momento da encruzilhada, o momento desmotivador, o cansaço do momento e evidentemente o balanço.
Não tendo o 2711 ainda um ano, embora aqui o autor ande nisto já desde 2007, o blogue ganhou um rumo e autonomia própria.
Mas não somos um clube privado.
Por isso em breve o 2711 terá algumas novidades, tanto ao nível de autores, iniciativas e intervenção.
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