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El-Rei D. João III ainda tentou pôr ordem nas constantes arruaças no seu egrégio chafariz: a primeira bica passou a servir para os pretos forros e cativos, mulatos e índios; a segunda para os mouros das galés; a terceira e quarta para os homens brancos; a quinta para as mulheres pretas; e a sexta para as mulheres e moças brancas. Porém, nada feito, não cessaram os tumultos. O mal não estava na ausência de disciplina, mas sim na falta de água. Damião de Góis, meu nobre e clarividente amigo, encontrava-se, neste caso, bem longe da verdade quando descreveu o chafariz d'El-Rei daqueles tempos.
-Esta construção admirável, com colunas em arcaria de mármore, lança tal abundância de água, por seis torneiras, que ela só bastaria para dar de beber ao mundo inteiro- escreveu ele no seu tratado Lisboa de Quinhentos.
Coitado do mundo e pobre Lisboa se mais água não houvesse.
Nove Mil Passos, Pedro Almeida Vieira, edição da Planeta, 2014.