Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]
Acabei de ouvir na rádio, programa do Pedro Rolo Duarte, que nesta Páscoa estamos mais espirituais e menos materialistas. Nas escolhas do programa, do melhor que anda por esta blogosfera, o espiritual foi o mais destacado. Pudera, sem dinheiro dificilmente podemos ser materialistas.
Sentia dificuldade em serenar e concentrar-se nas orações, mas o treino acumulado nos últimos seis anos acabou por vencer. Rezar tornara-se-lhe num consolo, permitia-lhe alhear-se do mundo. A sua respiração acalmou, até ficar muito serena, sem vestígios da febre que a havia atingido.
Uma luz dentro de si deixava-a imune a sensações terrenas e dava-lhe a ver o núcleo da sua personalidade, nas profundezas da sua alma. Rezar permitia-lhe, sobretudo, encontrar-se consigo própria. Não com a pessoa que os outros viam, mas com o seu verdadeiro ser, que sentia rico, forte e criativo. Por isso, se perguntava se Deus era aquela luz que cintilava dentro de si. Talvez as pessoas procurassem Deus no sítio errado. Talvez Ele estivesse dentro de cada um, só que aniquilado, afogado em medos e vergonhas, preconceitos e crenças.
Quando as pessoas se sentem ameaçadas, constroem barreiras à sua volta. Pouco importa se a ameaça é real, ou não, atrás de um muro, sentimo-nos protegidos, mas também importantes e superiores. Foi assim com o muro de Berlim, é assim com o muro dos israelitas e é assim nos condomínios privados, onde certas famílias vivem separadas do mundo que as rodeia.
Há pessoas que gostariam de viver num país rodeado de muros, para afugentarem pessoas vindas de outros países. No seu entender, assim se vivia em bem-estar, sem desemprego, sem crime, numa sociedade mais justa, mais civilizada, quiçá, perfeita.
Quando as coisas correm mal, há que procurar bodes expiatórios, numa tentativa de explicar aquilo que não se compreende. Na Idade Média, quando a peste grassava na Europa Central (no que hoje é a Alemanha e não só), a maioria cristã meteu na cabeça que a culpa era dos judeus, que envenenavam a água das fontes, onde as comunidades iam buscar a sua água. Começaram, assim, as matanças de judeus, organizavam-se milícias, que espalhavam o terror, matando e linchando a torto e a direito.
Hoje em dia, há quem veja nas hordas de imigrantes à procura de uma vida decente na Europa a razão de todos os males e de todas as crises. Não estou a negar que a Europa está a rebentar pelas costuras, que o financiamento estatal aos mais fracos está a soçobrar, que existem conflitos entre religiões e que, no meio de quem aqui tenta entrar, há muitos oportunistas. Mas as razões do desemprego, da criminalidade e da crise, em geral, devem ser procuradas na incapacidade dos nossos governantes. Além de uma gritante falta de visão, não exercem o seu posto a pensar no bem comum, mas no proveito próprio. E conflitos religiosos sangrentos existem igualmente entre cristãos, como o prova o caso da Irlanda do Norte.
Construindo um muro à volta do nosso país, travando a imigração, resolveríamos os nossos problemas? Não creio. Portugal depende muito do estrangeiro. Devemos, então, construir um muro à volta da Europa? De toda a Europa? Incluindo a Roménia, Albânia e outros países, onde existem tantos ciganos? Hum… Talvez construir um muro à volta da Europa rica, deixando a pobre de fora… O pior é que, neste caso, Portugal arriscava-se a ficar do “lado errado”!
Os ódios, extremismos e fanatismos que grassam um pouco por todo o lado só provam uma coisa: que nós, a Humanidade, estamos ainda muito longe de encontrar soluções para os nossos problemas e de viver em paz uns com os outros. Mas uma coisa é certa: a resposta não está (não pode estar!) no erigir de barreiras e, sim, no estender de mãos.
Uma Páscoa Feliz para todos!