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No Kikuxi #4

por Renato Seara, em 14.06.13

Sempre que posso gosto de conversar com os meus colegas de trabalho angolanos, em especial, com o Bernardo Bongola, o "Mongólia". Ele é possivelmente o rapaz mais humilde que conheci até ao dia de hoje. Acho que nunca o vi mal disposto, ou com más palavras para colegas angolanos e portugueses. Diziam-me quando cá cheguei que os angolanos naturais da província do Huambo, eram os mais simpáticos e menos manhosos. Já os naturais da província do Zaire, o oposto, mais matreiros e manhosos. Tive a felicidade de ainda não me ter cruzado com nenhum "zairense" matreiro, pelo que não posso aferir da veracidade da segunda afirmação, mas pelos meses que levo de Angola, posso já confirmar a primeira. 

 

O Mongólia é um rapaz trabalhador, que raramente diz não a nada ou revela insatisfação por ser incumbido de uma tarefa. Prontifica-se sempre a ser ele a cortar os cadeados que selam os contentores de material que chegam de Portugal. Penso que seja por estar na idade (no BI dele indica 18 anos mas eu continuo a achar que ele não tem mais do que 15 anos) de querer mostrar que já tem muita força. Percebe-se pela expressão no seu rosto que lhe custa ainda a pegar no pesado alicate de corte, mas, com maior ou menor esforço ele lá consegue, parando e fitando-nos depois, de cima do reboque, com um ar maroto e pleno de satisfação, enquanto aponta para os músculos do braço.

 

Pediu se lhe podia remarcar as férias que inicialmente estavam previstas para este mês. Tal como eu, apenas as gozará em Setembro. Em Setembro gozará as merecidas férias no Huambo, sua cidade natal. Está ansioso por voltar a estar com a "dama" que espera o primeiro filho de ambos. Com um brilhozinho nos olhos lá me conta as saudades que sente das pescarias no rio e dos churrascos de frango que, segundo ele, ninguém melhor do que ele prepara. A "dama" assim o diz, afima ele com um sorriso rasgado de orelha a orelha. Se é verdade ou não, não sei, mas se a qualidade do frango de churrasco por ele preparado for proporcional à sua simplicidade tal prato vale certamente uma estrela michelin. 

 

Abraço.

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No Kikuxi #3

por Renato Seara, em 08.06.13

Aqui em Angola existe a ideia de que os dias passam devagar, mas, as semanas passam a correr. Os meses esses têm passado a voar. Já à cerca de seis meses que deixei de escrever neste espaço, ou em qualquer outro. Não foi por falta de vontade, antes a falta de tempo a que muitas vezes se juntou o cansaço de semanas de trabalho de setenta horas. 

 

Gosto da dinâmica da economia angolana, mesmo aquando da época das chuvas. Aqui a chuva - contrariamente ao sucedido em Portugal - não arrefeceu a vontade de reconstruir uma nação. Estamos em Junho em plena época do Cacimbo. Chuva agora só em Outubro. No Cacimbo as noites são consideravelmente mais frescas, assim como o calor é, muito mais fácil de suportar. Em pleno planalto, na provincia do Huambo, as temperaturas à noite podem facilmente atingir os 4º a 5º C. Os angolanos com quem trabalho, sobretudo os naturais aqui da capital, dizem gostar de frio. Consideram frio 17ºC. Eu sorrio sempre que dizem isso, retorquindo que eles não sabem o que é frio. 

 

Planeio agora, nos poucos tempos livres de que disponho e assim haja um feriado, viajar pelas provincias onde dizem que tudo é mais belo e mais calmo. Gosto do dinamismo da economia, mas jamais irei apreciar o reboliço de Luanda e o seu infernal trânsito. Há saída de Luanda tudo se torna mais belo. O Miradouro da Lua e a bela praia em Cabo Ledo são dois belos exemplos disso mesmo. É com as duas imagens (abaixo) que me despeço com a promessa de que o próximo post não demora outros seis meses. 

 

Miradouro da Lua

 

 

 Cabo Ledo

 

 Abraço.

 

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No Kikuxi #2

por Renato Seara, em 13.12.12

A época das chuvas chegou a Angola. Com ela, vêm (ainda mais) complicações rodoviárias, inundações e os insectos: milhões de insectos. Nas milhares de poças de água que rapidamente se formam, devido à natureza argilosa dos solos angolanos, podemos encontrar milhares de pequenos "assassinos". Isto implica o reforço da camada repelente que me acompanha desde o primeiro dia. Faz parte já do quotidiano. A rotina é aliás sempre a mesma, o acordar com o nascer do sol, o banho tomado na menor fracção de tempo possível e o escovar de dentes com recurso a água engarrafada (sempre). 

 

Cada poça de água, torna-se igualmente uma estação de serviço para centenas de motociclistas angolanos que rapidamente se reúnem em redor de uma. Cada bocado de água serve para por a sua "Keweseki" a brilhar. Os angolanos são muito asseados e vaidosos, contrariamente ao que se poderia pensar. Telemóveis topo de gama, roupa de marca e carros vistosos ocupam o topo de preferências da juventude angolana. Os portugueses aqui são os menos vaidosos e menos asseados (quem diria). Aqui, qualquer "trapo" fresco que cubra o mais possível o corpo (devido aos insectos) é o suficiente.

 

O Verão esse é interminável por estas latitudes. O tempo é abafado, muito húmido, pelo que o ar condicionado é mesmo um bem essencial nesta terra. Nestes últimos dias, antes das Férias de Natal que passarei junta da família em Portugal, dou comigo com cada vez mais saudades do frio; das roupas de Outono/Inverno, das castanhas assadas, dos serões à lareira, etc. Apercebo-me pois que não passo de um "cinzento" e saudosista português, tão cinzento quanto o tempo que se faz sentir no "meu" Minho.

 

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Da clínica do Kikuxi ao local onde estou alojado a distância é de pouco mais de um quilómetro. No entanto esta curta viagem pode facilmente custar alguns milhares de Kwanzas. O risco aumenta consideravelmente para quem tem apenas visto extraordinário. O motivo esse é simples: o rigor da  policia angolana para com os "pulas". Este rigor termina invariavelmente quando se lhes oferece um "café" ou uma "gasosa". Mas, faz com que um simples passeio nos custe 10, 15, 20, ou mesmo mais USD. Isto é desmotivador por si só. Quem valorize a liberdade de movimentos, sente-se de certa forma "acorrentado", até porque existe o fundado receio que a "gasosa" por si só não seja suficiente, sendo que, uma ida a uma esquadra africana, mesmo que por algumas horas, é algo suficientemente inibidor.

 

Neste trajecto encontramos também muitos pequenos vendedores(as) ambulantes e pequenas barraquinhas de comes e bebes. Não arrisco petiscar, apesar de o cheiro ser convidativo. O que o olfacto quer, a visão reprova e o estômago agradece. As condições de higiene e de salubridade, deixam muito a desejar. As crises diarreicas são uma constante, mesmo não consumindo nestas barraquinhas, pelo que não vale a pena arriscar.

 

Em Angola sente-se o fervilhar da vida em cada canto, em cada esquina, em cada berma. Os angolanos, que não os ressentidos pela presença colonial portuguesa, são simpáticos afáveis e de uma simplicidade que nos desarma por completo. A alegria com que vivem, mesmo com tão pouco é talvez a primeira grande lição que levo deste país, que para já me ensinou o inestimável valor de coisas do dia a dia, como ligar um interruptor e poder tomar um banho, mesmo que em dois minutos.

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No Kikuxi #1

por Renato Seara, em 24.11.12

A 5 de Novembro de 2012, após sete intermináveis horas de voo, o comandante do voo da TAAG,  que ligou o Porto a Luanda, anunciava (finalmente) que acabávamos de aterrar no aeroporto 4 de Fevereiro. As minhas pernas nesse exato momento "pularam" de alegria. A minha tradicional dor de ouvidos, que tornam agoniantes os últimos trinta minutos de cada vôo, também acabara ali.  A cabeça essa, estava já a milhares de quilómetros. Naquele instante havia iniciado a contagem decrescente para o reencontro com as pessoas de que dolorosamente me separara fisicamente.  

 

Assim que se aterra em Angola, sabe-se de antemão que existe uma primeira "barreira" a ultrapassar, a qual consiste na famosa apetência dos agentes alfandegários para pedinchar por uma "gasosa". A descontracção com que aparentemente "enfrentei" os dois agentes, que me revistaram da ponta dos cabelos à ponta do pés, foi exactamente isso, uma aparência. Tremi desde o primeiro momento em que pisei naquele aeroporto até ao momento em visualizei uma placa, firmemente levantada, com o meu nome. O meu salvo conduto para sair dali. 

 

Luanda à primeira vista é um caos urbanístico, à segunda vista o caos é ainda mais impressionante, à terceira, quarta e quinta a perspectiva vai sempre piorando. O trânsito de Luanda, é indescritível através das palavras, devendo sim, ser vivido na primeira pessoa. Não há regras, sinais, ou um qualquer sentido de "responsabilidade" por parte quer de condutores, quer de motociclistas e muito menos dos peões. É um salve-se quem puder, ultrapassa-se por onde der. O serviço de táxi é disponibilizado pelos "candongueiros". Os candongueiros  não passam de umas "carripanas" de nove lugares invariavelmente ocupadas por mais de uma dúzia de passageiros, a quem são cobrados cerca de 100 Kwanzas (aproximadamente 1USD ou 0.80€) por viagem.

 

Não dissociei o primeiro impacto que Luanda me causou, das consequências que levaram ao aparecimento de todo o caos urbanístico existente. Assim, com excepção do tráfego pior que o imaginado, nada do que tenha visto me tenha "chocado". Esperava Luanda exactamente assim. Os bairros de lata que circundam o centro da cidade refletem anos de movimento migratório do povo angolano das províncias para as imediações de Luanda, devido aos conflitos armados que quase ininterruptamente e durante quarenta anos, fustigaram o país, primeiro a "guerra de libertação", entre 1961 e 1974 com o cinzento Portugal salazarista, e após a  independência alcançada em 1975, a guerra civil que apenas terminou definitivamente em 2002 com a morte do líder rebelde Jonas Savimbi.

 

Luanda, com excepção da (bem conseguida) zona da nova marginal, inaugurada dias antes das Presidenciais de 2012 que resultaram na reeleição de José Eduardo dos Santos, reflete pois na perfeição, o caos que cerca de quarenta anos de conflitos armados podem provocar, urbanisticamente e socialmente num país onde aparentemente não falta nada (matérias primas) e onde ao mesmo tempo falta tudo.

 

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