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O médico, o cura e o professor eram as pessoas mais importantes, durante os anos em que cresci e outros que se seguiram, até o 25 de Abril ter chegado àquela aldeia beirense. Levou o seu tempo, mas acabou por chegar. Tudo levava o seu tempo a chegar à aldeia. A bitola para aferir esses homens era o grau da sua vocação. Cuidavam, com zelo, dos corpos, das mentes e dos espíritos, não deixando de largar neles o verme de um disfarçado despotismo. O cura usava o poder nas dobras da batina, engomada a preceito pela Gracinda, moçoila rechonchuda, que comungava todos os domingos. O Padre Dionísio arregaçava a batina de pregas vincadas para sentir as nádegas frescas e macias da filha do Rufino contra a sua barriga flácida. E o Rufino badalava o sino, durante a Eucaristia, muito sisudo, na envergadura de sacristão, orgulhoso da sua prendada Gracinda. O professor usava o poder no ponteiro e na régua que deixava descair, quando menos esperávamos, e nos punha as palmas das mãos e os traseiros a escaldar ao rubro. O meu pai usava o poder no bastonete polido, que ele empunhava com nobreza, na curta caminhada diária de casa ao consultório, e servia para enxotar os indesejáveis. Todos eles eram homens bem vocacionados.
Recordo o homem que fui sem saber de onde vem a memória, sem reconhecer a sua autenticidade. A ténue possibilidade de ter sido esse homem apresenta-se mais reconfortante do que a realidade de quem sou agora. Digamos que o possível se converte no meu real. O possível é a verdade que desejo aprisionar como minha. Já que nada consigo reter nas mãos que deixaram de acompanhar a linguagem do cérebro. A mente recusa-se a aceitar as manchas e as rugas que traçam um rendilhado insólito na pele ressequida. Os olhos vêem os dedos desenhar movimentos, como se não seguissem a minha vontade. Como se não pertencessem ao resto do corpo. Talvez esse homem tenha existido apenas na minha imaginação. Mesmo no tempo em que eu me conhecia. Mas não me perguntem que tempo foi esse. Decerto muito longínquo, soterrado nos confins do mundo. Lembro-me vagamente que costumava cogitar se o mundo tem um princípio e um fim. A incerteza do fim era o que me mantinha acordado, certas noites. Pensamentos que deixei de ter há muito. Só não consigo precisar quando. Muito ou pouco, tudo ou nada são hoje quantificações que perderam o interesse. Não sei o que me interessa. Há dias em que julgo interessar-me pela vida, outros em que julgo interessar-me pela morte. Mas neste instante, que poderá durar um milésimo de segundo ou uma eternidade, interesso-me por aquele homem que imagino tenha sido eu. Imaginar é o único jogo praticável. O único prazer.
Sobe, filho. Olha a aldeia tão pequenina, lá em baixo. Parece um presépio.
A aldeia sempre me pareceu pequenina mas nunca consegui divisar o tal presépio. Talvez porque me recusava a subir a encosta. Ficava na falda da montanha, rente aos troncos das árvores, de pé firme na solidez da terra, sobre o seu tapete verde com salpicos de orvalho e riscos de sombra. O meu pai com as botas engraxadas, no seu andar pesado, levantava a poeira do caminho. O cachimbo largava nuvens espessas, até ao adro da igreja. Eu seguia, uns metros atrás, de cabeça baixa, a mão esquerda entrelaçada na mão macia da minha mãe e a direita dentro do bolso das calças, dando voltas e reviravoltas à última pedra encontrada nos campos. Conhecia de cor as suas arestas, porosidades, grânulos. À entrada da igreja, a minha mãe tirava-me o boné e afastava os cabelos dos meus olhos. Eu sentia o calor dos dedos na testa. O sorriso dela e o toque leve dos seus dedos eram as aguarelas que eu teria usado, se fosse pintor. De um lado, eu e a minha mãe. Do outro lado, o meu pai, cofiando o bigode crespo, e o seu bastão, fincado no empedrado. Às vezes, éramos os três, com o bastão pelo meio, contornos desfocados na contraluz.
Andas sempre com as mãos a esgravatar na terra. Olha para as unhas, António. Não venhas para a mesa sem limpares as unhas, ouviste?
Olho a minha mão direita no movimento banal de dar uma, duas voltas à chave. Os ossos salientes parecem querer furar a pele. Em tempos, eu carregava os ossos do ofício, levava-os para casa, enrodilhavam-se comigo na cama. Chegavam a formar montinhos pela sala onde era raro receber uma visita. A mão, que me parece alheia, roda a chave para a direita, no buraco da fechadura, numa morosidade aflitiva, depois detém-se num gesto impreciso, suspenso. Não tenho pressa de entrar. A pressa ficou estilhaçada no consultório, com o médico afadigado em compor um ar que se encaixasse no momento. A mão empurra a porta. Sinto o olhar fixo do vazio a cair sobre mim e vejo o reflexo do meu olhar. O desejo tardio de ter um cão, à minha espera, bate-me na mente, em pancadas secas.
“Gostava de ser mais nova.” Foi um quase suspiro, a desejar ter sido um grito, uma frase perdida no meio de um espaço que deixara de ter nome, deixara de ter valor. Porque a velhice se agarra a um tempo, que os outros não entendem por não lhes pertencer, por nunca lhes ter pertencido. Ainda que toda a vida estejamos agarrados a tempos exclusivos, pessoais e intransmissíveis, distantes da realidade dos que volteiam, como abelhas ou libelinhas, abutres ou morcegos, à nossa volta, não é a mesma coisa. Quando nos julgamos incapazes de envelhecer, possuímos a segurança de podermos contornar o incontornável. As palavras são o tesouro e a magia que nos libertam. As limitações e insuficiências das palavras começam a tornar-se mais visíveis e insustentáveis quando o tempo corrói a mente. Começam a enfraquecer, acotovelam-se, tropeçam umas nas outras, ficam encavalitadas e até desligadas, pássaros estonteados à solta, com medo da espingarda certeira do caçador. E a frase atirada para dentro do vazio, ficou ali a espreitar, por detrás de uma cortina que se tinha entreaberto, devagarinho. Falava do que não dizia. Dardejava uma luzinha frouxa na escuridão sem retorno. E roçava, a medo, o medo de ir mais além, na dança tétrica do pensamento que viera à tona, náufrago, muito cansado de tanto esbracejar para se acolher na ilusão de uma terra firme. Apenas a firmeza dos passos curtos e pesados a levarem a mulher, que gostava de ser mais nova, numa direcção única e irreversível. E aquela indelével certeza que o tempo estava a encurtar. Eu fingi que não ouvi e falei sobre a voz desesperançada da mulher que escrevia, na sombra, o diário do tempo sem horas ou das horas sem tempo. Não quis acompanhá-la na vertigem que me faria cair no precipício dela. Usei as palavras com a exuberância de quem ainda não lhes conhecia os limites e a insuficiência. Cortei-lhe o pensamento que ficou inacabado por misericórdia de mim e não dela.
Habituei-me a escrever aparentemente confortável sobre coisas desconfortáveis e a polemizar com aparente naturalidade sobre coisas aparentemente impolemizáveis. Em parte devo-o a Kafka, lido e estudado num certo mestrado fertilizante, como uma escrita, uma literatura, que encurrala e agride. A outra parte devo-o à sova profissional, pessoal e moral a que o socratismo farsolas me submeteu desde o primeiro momento e para a qual eu não estava nada preparado. Azar. A Boa Informação fez o resto. No dia em que por aqui e por ali reproduzir somente paleio previsível e cordato, estarei morto. Enquanto puder, prefiro estar vivo, bem vivo, humano e solícito para com gente viva, quotidiana. Implacável com ladrões, fingidos, desleais, essa montanha de vermes que devorou Portugal e nos condena sem apelo nem agravo, como está bem à vista. E tu, Kakfa, meu querido e benéfico vírus, perdoa-lhes porque não sabem o que castram!
Um fervor de paixão tomou conta dele: o seu dinheiro, o seu poder de pagar, dar, influenciar, deveriam ser suficientes. Marralhava pelo abraço, pelo beijo, pela escalada do desejo. Primeiro implorou, depois pediu, mais tarde exigiu, finalmente obrigou. Não pedia muito. Não obrigava a nada de mais. Tinha dado tanto. E tanto era caro. Só o amor do outro, um moço, em tudo aquiescente, a todas as coisas satisfeito, e cada vez mais encurralado. «Tens de passar por ambíguo se quiseres singrar, meu filho!» — sussurara a um o Diabo e a outro: «Podes ter tudo o que quiseres dele, se o obrigares a prostar-se no pó e pelo pó.» O Diabo era porreiro e sabia o que dizia e mais ainda o que fazia. Sim, passaram a discutir numa negociação interminável, um por liberdade, talvez dinheiro, talvez consequências da amizade entabulada como uma conversa objectiva, dá-me isso, dar-te-ei aquilo. Derreado, arriscando petiscar daquelas carnes ingénuas, moldáveis, delas sequioso e esfomeado, o mais velho avançava, sentia uma infinita vaidade por ter, quase ter, quase-ter tido aquilo, o moço, como cão de raça levado a passear, como casaco de peles vistoso, Rolex lustroso, para os quais os pescoços volteiam e cabeças meneiam. O outro, quase seu cão, quase seu casaco, quase seu Rolex, simplesmente fugia, fingia hesitações, quando tinha certezas diferentes, seis meses depois, imobilizando-se rígido em arco de asco. Se pudesse, treparia as paredes para longe daquilo, mas não sabia o caminho. Na última refrega, contundiu-o até que cessasse, desligasse. E desligou-o. Juntou-se a morte à vontade de morrer fosse da morte pequena fosse da única e irremediável.
Fica-se exultante quando, desconfiadamente, se vai ler o voluntarioso Henrique Raposo e, em vez do fervor liberalóide fuzilador e taliban, com o que se depara cá o blogger PALAVROSSAVRVSé com comentário literário sob a forma tentada. Sobre Rentes de Carvalho. Escritor que o Henrique 'descobriu' e deseja dar-nos a encontrar, encantado que está. Muito bem. Chama-lhe 'profeta'. Rentes, um homem dos mil ofícios também da minha Vila Nova de Gaia, antes da longa aventura holandesa, vale bem a pena, é verdade. Que tal uma referência à página pessoal e outra ao blogue do José Rentes de Carvalho? Não lhe ocorreu. Porém, lida a resenha do Raposo, com um pequeno sorriso pelo pequeno prazer possível, na verdade o que se salva, e a nado como Os Lusíadas, é a seguinte feliz citação raposina, onde a compaixão pela suposta infelicidade sexual dos portugueses do interior, em Rentes e em Raposo, me comove até às lágrimas: «... na televisão (holandesa) um longo programa sobre orgasmos, técnicas de coito, aberrações, confissões (...) os presentes a discutir com a desinibição que se tornou costumeira (...) recordo como quando me encontro na aldeia se me tornam sensíveis os profundos tabus que lá continuam a envolver a sexualidade. É como se ela não existisse, ao mesmo tempo que as pessoas recebem através da televisão um bombardeio de erotismo. E pergunto-me como deve ser melancólica e frustrante a vivência sexual da minha gente, que por um lado vê a liberdade, mas por outro continua presa a formidáveis cadeias.» in Tempo Contado (Diário) via Henrique Raposo