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Recordo o homem que fui sem saber de onde vem a memória, sem reconhecer a sua autenticidade. A ténue possibilidade de ter sido esse homem apresenta-se mais reconfortante do que a realidade de quem sou agora. Digamos que o possível se converte no meu real. O possível é a verdade que desejo aprisionar como minha. Já que nada consigo reter nas mãos que deixaram de acompanhar a linguagem do cérebro. A mente recusa-se a aceitar as manchas e as rugas que traçam um rendilhado insólito na pele ressequida. Os olhos vêem os dedos desenhar movimentos, como se não seguissem a minha vontade. Como se não pertencessem ao resto do corpo. Talvez esse homem tenha existido apenas na minha imaginação. Mesmo no tempo em que eu me conhecia. Mas não me perguntem que tempo foi esse. Decerto muito longínquo, soterrado nos confins do mundo. Lembro-me vagamente que costumava cogitar se o mundo tem um princípio e um fim. A incerteza do fim era o que me mantinha acordado, certas noites. Pensamentos que deixei de ter há muito. Só não consigo precisar quando. Muito ou pouco, tudo ou nada são hoje quantificações que perderam o interesse. Não sei o que me interessa. Há dias em que julgo interessar-me pela vida, outros em que julgo interessar-me pela morte. Mas neste instante, que poderá durar um milésimo de segundo ou uma eternidade, interesso-me por aquele homem que imagino tenha sido eu. Imaginar é o único jogo praticável. O único prazer.
Eram três homens vulgares, de estatura mediana, olhos sem luz, andar fatigado e que chegaram em curtos intervalos de tempo, cada um trazendo uma rosa amarela na mão. Observei‐os, surpreendida, à distância, sem desejar ser notada, no meu minucioso exame. Deveriam ser mais ou menos da minha idade, embora a passagem dos anos tenha sido menos generosa para com eles. Apesar de não mostrarem sinais de parecença física, dir-se‐ia existir um vínculo de qualquer espécie a uni‐los. Era o olhar que os traía, enquanto se miravam de esguelha, cautelosos, relutantes em se cumprimentarem, quedando‐se rígidos e sérios nos seus fatos escuros, à entrada do cemitério da Ajuda. Quando o carro fúnebre chegou aos portões, avançaram como se tivessem sido previamente encenados e soubessem exactamente o que cada um deles pensava, dirigiram‐se à urna e ofereceram os seus ombros, ao lado dos homens da casa funerária, em silêncio, mas de rostos mais serenos e olhares rarefeitos. Nesse instante, na contraluz dos altos e esguios ciprestes, notei as rugas de espanto na face trigueira do meu marido, um tanto apreensiva, sem saber como ele iria reagir.
Quem seriam aqueles estranhos?
As três rosas amarelas cortaram o ar petrificado da manhã e desapareceram no buraco escuro, aberto na terra ainda húmida pela chuva da noite anterior, por onde desaparecera a urna.
Espaços, não lineares, distribuídos numa progressão vertical, edifício de hierarquias habitado por segredos e dentro deles: pessoas, os personagens que ocupam um lugar na história deste livro.
Hoje saiu na PNet Literatura a minha recensão literária do novo romance da Julieta Ferreira, com a chancela da Lua de Marfim. Estou certo que este livro tem a magia de nos arrebatar e de nos envolver até desaparecermos dentro dele... em leitura.
Sobe, filho. Olha a aldeia tão pequenina, lá em baixo. Parece um presépio.
A aldeia sempre me pareceu pequenina mas nunca consegui divisar o tal presépio. Talvez porque me recusava a subir a encosta. Ficava na falda da montanha, rente aos troncos das árvores, de pé firme na solidez da terra, sobre o seu tapete verde com salpicos de orvalho e riscos de sombra. O meu pai com as botas engraxadas, no seu andar pesado, levantava a poeira do caminho. O cachimbo largava nuvens espessas, até ao adro da igreja. Eu seguia, uns metros atrás, de cabeça baixa, a mão esquerda entrelaçada na mão macia da minha mãe e a direita dentro do bolso das calças, dando voltas e reviravoltas à última pedra encontrada nos campos. Conhecia de cor as suas arestas, porosidades, grânulos. À entrada da igreja, a minha mãe tirava-me o boné e afastava os cabelos dos meus olhos. Eu sentia o calor dos dedos na testa. O sorriso dela e o toque leve dos seus dedos eram as aguarelas que eu teria usado, se fosse pintor. De um lado, eu e a minha mãe. Do outro lado, o meu pai, cofiando o bigode crespo, e o seu bastão, fincado no empedrado. Às vezes, éramos os três, com o bastão pelo meio, contornos desfocados na contraluz.
No próximo dia 2 de Novembro, pelas 18h30, na Livraria Leya na CE Buchholz, lançamento do novo romance da Julieta Ferreira, que também é uma das autoras do 2711, "NA MARGEM DO TEU SEGREDO".
Andas sempre com as mãos a esgravatar na terra. Olha para as unhas, António. Não venhas para a mesa sem limpares as unhas, ouviste?
Olho a minha mão direita no movimento banal de dar uma, duas voltas à chave. Os ossos salientes parecem querer furar a pele. Em tempos, eu carregava os ossos do ofício, levava-os para casa, enrodilhavam-se comigo na cama. Chegavam a formar montinhos pela sala onde era raro receber uma visita. A mão, que me parece alheia, roda a chave para a direita, no buraco da fechadura, numa morosidade aflitiva, depois detém-se num gesto impreciso, suspenso. Não tenho pressa de entrar. A pressa ficou estilhaçada no consultório, com o médico afadigado em compor um ar que se encaixasse no momento. A mão empurra a porta. Sinto o olhar fixo do vazio a cair sobre mim e vejo o reflexo do meu olhar. O desejo tardio de ter um cão, à minha espera, bate-me na mente, em pancadas secas.
“Gostava de ser mais nova.” Foi um quase suspiro, a desejar ter sido um grito, uma frase perdida no meio de um espaço que deixara de ter nome, deixara de ter valor. Porque a velhice se agarra a um tempo, que os outros não entendem por não lhes pertencer, por nunca lhes ter pertencido. Ainda que toda a vida estejamos agarrados a tempos exclusivos, pessoais e intransmissíveis, distantes da realidade dos que volteiam, como abelhas ou libelinhas, abutres ou morcegos, à nossa volta, não é a mesma coisa. Quando nos julgamos incapazes de envelhecer, possuímos a segurança de podermos contornar o incontornável. As palavras são o tesouro e a magia que nos libertam. As limitações e insuficiências das palavras começam a tornar-se mais visíveis e insustentáveis quando o tempo corrói a mente. Começam a enfraquecer, acotovelam-se, tropeçam umas nas outras, ficam encavalitadas e até desligadas, pássaros estonteados à solta, com medo da espingarda certeira do caçador. E a frase atirada para dentro do vazio, ficou ali a espreitar, por detrás de uma cortina que se tinha entreaberto, devagarinho. Falava do que não dizia. Dardejava uma luzinha frouxa na escuridão sem retorno. E roçava, a medo, o medo de ir mais além, na dança tétrica do pensamento que viera à tona, náufrago, muito cansado de tanto esbracejar para se acolher na ilusão de uma terra firme. Apenas a firmeza dos passos curtos e pesados a levarem a mulher, que gostava de ser mais nova, numa direcção única e irreversível. E aquela indelével certeza que o tempo estava a encurtar. Eu fingi que não ouvi e falei sobre a voz desesperançada da mulher que escrevia, na sombra, o diário do tempo sem horas ou das horas sem tempo. Não quis acompanhá-la na vertigem que me faria cair no precipício dela. Usei as palavras com a exuberância de quem ainda não lhes conhecia os limites e a insuficiência. Cortei-lhe o pensamento que ficou inacabado por misericórdia de mim e não dela.