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O homem, para conseguir a desejada aliança matrimonial, para obter uma genitrix, «compra o seu corpo», oferece arras e donas a sua mulher (...)

«Para compra do seu corpo» - expressão também registada no Livro do Deão e no Livro de Linhagens do conde D. Pedro - traduz claramente que a função fundamental do matrimónio é garantir a procriação, a missão da esposa é gerar (...) O que significa que, pela lei do matrimónio, os homens adquirem o direito de utilização do corpo da mulher, nele procurando a sua utilitas, a procriação.
(...)
No que toca às classes mais desfavorecidas, o direito foraleiro dos séculos XII e XIII punia o abandono do cônjuge - pelo marido ou pela mulher - com pena mais severa e discriminatória para a mulher, como seria de esperar (...) Revele-se que só o casamento de bênçãos, aquele que é celebrado com todas as solenidades do direito e consagrado pela religião, está protegido por esse direito. O que não significa que o rei não considere como válidos outros casamentos (...) desde que o casal viva continuadamente na mesma casa durante sete anos, considerando-os pois marido e mulher «ainda que nom sejam casados em façe da Igreja».
(...)
E inúmeras são as relações extra-conjugais (...) O Livro de Linhagens do Conde D. Pedro regista o nome de várias dezenas de barregãs, que o foram da maior parte dos nossos monarcas, de grandes nobres (Sousas, Maias e tantos outros) e, até, de bispos e arcebispos. Todos eles dessas barregãs ou «amigas» tiveram «filhos de gaança», isto é, ilegítimos. Esta mesma fonte revela também casos de abandono de esposas («leixou-a e nom curou mais dela») seguidos de raptos («roussos») de outras mulheres, tidas depois publicamente como barregãs. A multiplicação destes «maaos enxempros» no século XIV, ao nível da nobreza e da vilania, obrigou Afonso IV e D. Pedro a legislar sobre o assunto.

A família: o léxico, Leontina Ventura - páginas 110 a 114

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Guédelon - Construção de um castelo medieval

por Cristina Torrão, em 28.07.15

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O Canal televisivo ARTE mostrou, no passado dia 20 de Junho, o documentário Renaissance d’un château medieval, sobre a construção de um castelo, na Borgonha. Este ambicioso projeto, iniciado há quase 20 anos, tem por objetivo pôr de pé uma fortaleza, usando apenas técnicas do século XIII.

 

A fotografia acima mostra o aspeto geral da obra, já se vendo a casa de residência dos senhores do castelo, uma das torres em estado bastante adiantado e o esboço das muralhas. Foi isto que se conseguiu desde 1997, ressalvando que as obras são interrompidas durante todo o Inverno, devido à lama que se cria, e não se usam guindastes, instrumentos, materiais ou técnicas posteriores ao século XIII (incluindo de desenho, medição, planeamento e transporte das pedras).

Guédelon, janela.jpg

O documentário evidenciou bem as dificuldades encontradas pela equipa responsável por esta construção. Impressionaram-me particularmente os festejos e o alívio dos envolvidos ao conseguirem acabar a janela da capela (na foto), tão difícil foi a sua concretização, devido aos arcos. E perguntamo-nos como foi possível construir as catedrais góticas…

 

Admiro muito as pessoas que se dedicam a projetos destes, pela sua perseverança, mas também pelo respeito que votam ao passado, no meu entender, a única maneira de apreciar, em pleno, e entender melhor o presente.

 

Guédelon, escultor.jpg

O castelo de Guédelon está aberto a visitantes durante a época de férias. Para mais informações, consultem o site oficial, aqui em língua francesa, e em língua inglesa.

Podem ver aqui o vídeo do documentário (em francês). Todas as fotografias usadas neste post têm a mesma origem.

 

 

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 «Como é evidente, a escrita medieval é inicialmente monopólio da Igreja. Só a partir do século XII começa a ser usada também pelos príncipes e senhores, mantendo-se, no entanto, até aos finais do século XV, o controle clerical sobre toda a escrita, mesmo a que dimanava do poder político. Ora a escrita clerical dita as normas, expõe as crenças, legitima as práticas, mas não descreve a realidade. No fim do Império Romano, a Igreja, tendo alcançado uma posição de poder, combate a desordem bárbara, defende a paz social, a hierarquia e o respeito pela lei. Carlos Magno consagra o princípio de que o poder terrestre tem como objectivo final o Reino de Deus sobre a Terra. A sociedade cristã deve aproximar-se tanto quanto possível do seu modelo ideal que é a Jerusalém celeste.
Neste quadro, o que importa é a ordem pública. Imposta e mantida a estrutura social, definido o bem e o mal, faz parte da estratégia da Igreja apelar constantemente para o ideal como uma meta colectiva, mas não tanto denunciar o hiato entre o modelo e a realidade. O pecado só é denunciado quando se torna público, para evitar a sua propagação. O que se passa na vida privada deve ser secreto. Compete ao chefe de família ou da linhagem velar pelo cumprimento da norma no espaço doméstico».

Introdução (José Mattoso e Bernardo Vasconcelos e Sousa) - página 18
(destaques da minha responsabilidade)

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