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Sobe, filho. Olha a aldeia tão pequenina, lá em baixo. Parece um presépio.
A aldeia sempre me pareceu pequenina mas nunca consegui divisar o tal presépio. Talvez porque me recusava a subir a encosta. Ficava na falda da montanha, rente aos troncos das árvores, de pé firme na solidez da terra, sobre o seu tapete verde com salpicos de orvalho e riscos de sombra. O meu pai com as botas engraxadas, no seu andar pesado, levantava a poeira do caminho. O cachimbo largava nuvens espessas, até ao adro da igreja. Eu seguia, uns metros atrás, de cabeça baixa, a mão esquerda entrelaçada na mão macia da minha mãe e a direita dentro do bolso das calças, dando voltas e reviravoltas à última pedra encontrada nos campos. Conhecia de cor as suas arestas, porosidades, grânulos. À entrada da igreja, a minha mãe tirava-me o boné e afastava os cabelos dos meus olhos. Eu sentia o calor dos dedos na testa. O sorriso dela e o toque leve dos seus dedos eram as aguarelas que eu teria usado, se fosse pintor. De um lado, eu e a minha mãe. Do outro lado, o meu pai, cofiando o bigode crespo, e o seu bastão, fincado no empedrado. Às vezes, éramos os três, com o bastão pelo meio, contornos desfocados na contraluz.
Todo o escritor beneficia com o acto da escrita. Mesmo que, à partida, não se julgue necessitado de terapia ou de uma purificação emocional. Ao escrever, por detrás das máscaras que vou usando, em forma das várias identidades que crio, constantemente me (re)descubro e (re)invento. Escrever é desenhar estradas e traçar percursos, onde navego dentro do batel das palavras. E, nesse navegar, chego, muitas vezes, onde não suspeitava ser capaz de chegar. Escrevo à procura de uma identidade, numa afirmação de quem sou, um rescindir dos fantasmas que me habitam, uma catarse que me liberta de certas amarras. Durante o longo período de ausência, nos anos em que vivi na Austrália, a escrita serviu para me situar dentro de um espaço alheio e me (re)ligar com o que deixara para trás. Serviu, digamos assim, de ponte entre aquela que eu fora e aquela que não sabia ainda quem era. Era a voz dos meus silêncios, dúvidas, inquietações, da minha nostalgia e dos negrumes que pairavam em mim. Agora é uma presença constante, que se impõe. É uma paixão e um vício. Um vício muito bom que me apazigua e me faz crescer. Acredito que a escrita é o espelho da alma. Nesse acto solitário, que consegue expulsar de mim a solidão, revelo-me continuamente porque o que escrevo é o reflexo do pensamento, único lugar onde existo despida dos atavios com que me enfeito e os que me são oferecidos pelos olhares dos outros. É no pensamento que vivo a absoluta certeza de ser verdadeira e intocável. É no pensamento que residem as palavras sem embuste.
"O presidente da Mesa do Congresso do PSD, Rui Machete, convocou hoje o Conselho Nacional do partido para o dia 12 de Fevereiro. A ordem de trabalhos tem três pontos: análise da situação política, realização de um congresso extraordinário a pedido de 2.500 militantes e aprovação do respectivo regulamento e marcação da eleição do presidente do PSD e dos restantes membros da Comissão Política Nacional." (Publico)