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Temos vários tipos de fundamentalismos: religioso, ideológico e agora o fundamentalismo alimentar. Ao que parece, neste país, esconder as coisas faz com que deixem de fazer mal ao cidadão. Escondemos o tabaco (as pessoas fumam menos?), reduzimos o sal no pão(o que é que isso tem com um bom pão?), este governo esconde a Troika (e assim não destrói na mesma o Estado Social?), agora escondem os bolos e outros similares nas escolas (os miúdos vão deixar de os consumir?).
... para pedinchar atenção, venho aqui dar as boas notícias. Após uma reunião com a Directora-Regional de Educação do Alentejo, a comunidade de Santo Amador conseguiu manter a sua escola aberta, pelo menos por mais um ano.
Parabéns a Santo Amador, aos seus meninos e a todos os que recusam deixar morrer aquela terra.
Hoje venho aproveitar-me da visibilidade que o 2711 já tem para chamar a atenção para um problema local. Uma questão insignificante para 99,9% da população portuguesa, mas um verdadeiro terramoto para as famílias de uma freguesia do meu concelho chamada Santo Amador. É uma freguesia com cerca de 400 habitantes, que vivem intensamente a sua terra. Todas as actividades que lá realizamos têm sempre casa cheia, a biblioteca é uma das mais movimentadas do concelho e tem a maior taxa de empréstimo de livros por habitante.
Destas 400 pessoas, algumas dão-me o privilégio de serem minhas amigas, por isso acompanho a apreensão com que aguardam o início do novo ano escolar. Em vez da alegria e azáfama habituais, em Santo Amador os pais preparam-se para meter os seus filhos com apenas 6 anos num autocarro de madrugada para só os voltarem a receber em casa ao entardecer. No caso dos meninos em idade de jardim-de-infância é caso para esquecer. À excepção daqueles cujos pais trabalham fora de Santo Amador e os levam consigo, ficarão em casa com os avós, até à idade de ingresso no 1º ciclo.
É o retrocesso puro e simples em todas as políticas de alfabetização e educação acessível a todos. Eu sei que está a acontecer por todo o país, mas eu resido aqui, o meu concelho é este e são estas pessoas e estas crianças que eu tenho a obrigação de defender, como bibliotecária, como cidadã, como mãe de outras crianças que tiveram a felicidade de residir num sítio onde as escolas (ainda) não fecharam.
Peço desculpa aos leitores do 2711. O que trago hoje não é considerado um drama nacional, embora o seja de facto. Não é uma prioridade na agenda mediática, embora o devesse ser. As crianças de Santo Amador são números na mesa da Directora Regional de Educação do Alentejo, que nem sequer se digna responder às cartas que os pais lhe dirigem. Mas para mim são crianças verdadeiras, têm cara, história, família e um nome: O Guilherme, o André, o Diogo, a Ana Catarina, a Raquel, o Afonso, o Rui, a Mara, a Noélia, a Beatriz, a Cristiana, o David, o Carlos, o Marco, a Rute e o Tomás.
Em Setembro, deixam Santo Amador e atrás deles, mais cedo ou mais tarde, irão os Pais. E Santo Amador será apenas mais uma aldeia fantasma, a quem roubaram a vida.
Que chatice senhor Passos Coelho, que chatice.
Fico perplexa e preocupada quando oiço adolescentes de dezassete anos falarem dos governos fascistas de uma forma enaltecedora, depois de estudarem esses regimes e sem terem tido qualquer contacto com a realidade. Essa realidade que apenas lhes chega através de interpretações manchadas pela parcialidade e subjectividade.
Sendo Portugal um país em que existe uma exagerada preocupação em formar "doutores", em que se usa e abusa o título a preceder o nome, assiste-se, cada vez mais, numa contradição que ainda não consegui entender, ao descrédito e desrespeito de uma classe que está à frente da educação escolar da nossa juventude.
Depois da compra dos livros e do material escolar... Obrigá-los a deitar cedo... Levá-los à escola tentando não chegar atrasados... Ir buscá-los... Levá-los às actividades que num momento qualquer no tempo achámos que só poderiam fazer bem... Verificar os trabalhos de casa, o calendário dos testes... Ir às reuniões com os professores... Conversar com outros pais que teimam em dizer-nos que o Prof. x deixa muito a desejar... Ouvir as queixas da comida da cantina que é uma porcaria... Ai, as alegrias de um encarregado de educação...
Espero sinceramente que a reavaliação leve à suspensão definitiva de colocar alunos em latas de conserva. Principalmente que as escolas do interior se mantenham e que não se siga o caminho de desertificação tão adorado pelo anterior governo.
Sem duvida que terão melhores condições, nem que para isso tenham de sair de casa ás sete da manhã e regressem ás sete da tarde, nem que para isso sejam colocadas em turmas de 30 alunos, nem que para isso se feche o interior e se mande a população inteira para o Litoral.