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O que eles queriam sabia ela! Era vê-los nas festas dos Lemos Fortunato a filar os empregados
do catering. Sabia, oh, se sabia!, do que eram capazes. Ainda · outro dia surpreendera dois em flagrante, um deles até o reconhecia do hipódromo do Campo Grande, os dois atracados na casa de banho das mulheres em São Carlos. Nessa noite, na ópera, Guida sentira-se sufocar com o ar de chumbo da sala. E como o apreço por Wagner era nenhum, e menos ainda por Das Rheingold, levantou-se a meio do acto para ir molhar a cara. O que viu provocou-lhe vómitos secos, mas eles continuaram impávidos. Ah! Farta daquela caterva de snobes! Não tinha o sangue de barata de Nora. Nora apostava na ficção dos casalinhos, porque acreditar nessa ficção desobrigava-a de pensar. Com ela não contassem. Já em Moçambique os trazia debaixo de olho. O asco que lhe causava o Ricardo Montez, sempre a pavonear-se com um fuzileiro ou um pára-quedista nas esplanadas e cinemas de Lourenço Marques. E era um indivíduo daqueles, só porque escrevia artigos a defender a guerra no Norte, recebido com salamaleques de bispos e generais nas recepções e jantares do Palácio da Ponta Vermelha. Apostou em como um dia aquilo acabava. De facto, acabou.
O diabo continua a estar muito mais nos detalhes da homicida paz tumular de espírito que no escabroso acto macabro perpetrado. Mas também pode habitar em muitas das inferências manhosas que as barricadas entretanto levantadas possam fazer. O poderoso e lobista continente gay português procurará fazer do caso um crime de género e não o que manifestamente é, um crime passional como outro qualquer, talvez mais requintado, mais simbólico, mais brutal, mas sempre fruto da ávida duplicidade dos corpos e da velhaca ambiguidade dos corações: «O relatório de John Mongiello não diz, mas é plausível admitir que, entre as duas e as sete da tarde, o homicida terá aproveitado para dormir a sesta. A parte que se sabe é que tomou banho antes de sair do hotel.» Eduardo Pitta