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Sendo Portugal um país em que existe uma exagerada preocupação em formar "doutores", em que se usa e abusa o título a preceder o nome, assiste-se, cada vez mais, numa contradição que ainda não consegui entender, ao descrédito e desrespeito de uma classe que está à frente da educação escolar da nossa juventude.
Do teclado para a rotina nocturna de saltar para e da traseira de um mastigador de esterco e compactador. Fausto, o companheiro de escala nessa noite, canguru magro e esgrouviado, tão parco em palavras mas interessado em ambientar o novato, disse-me logo antes de arrancarmos para o turno: «Doutor!», estou a ver que a minha alcunha é "doutor", «isto é sempre a mesma coisa.» Um trabalho simples, só penoso para o olfacto e as vistas. Ex-presidiário, estava ali havia três anos. Por cunha. A irmã fora amante de um antigo administrador. Admirava o meu voluntarismo. «Já cá pigou de tudo. Agora um doutor.» Depois da minha experiência de nove meses à entrada de um Pub Portuense cuja clientela era basicamente idosa, reumática, mas ardida, trabalhar fora do meu ambiente natural de Escola, após doze anos ininterruptos de serviço, é o derradeiro paliativo. Não é necessária perspicácia: a sociedade senil portuguesa agoniza por adiantada avareza e insensibilidade social. Miserabilismo retributivo apertando milhares. Nacional eugenia: condena a rasteira sobrevivência sem horizontes quase toda a gente. E quase toda a gente ainda agradece. Por menos, em silêncio, sociedades inteiras sufocaram. Até à extinção.