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O governo - de que Cavaco passou de refém a tutor – “com garantias reforçadas de coesão e solidez”, onde Portas passa a coordenar a ministra que, de forma nenhuma, queria no governo, sem que se “sobreponha às suas competências próprias”, que “continua em funções”, aguarda posse.
Confuso?
Não!
Isso não é nada quando o primeiro-ministro é o mesmo que diz que o governo não tem culpa nenhuma no aumento da dívida. Ou que a crise tem sido mais forte porque os portugueses consumiram menos do que o previsto!
Não. Não há confusão nenhuma, isto é um governo coeso e sólido, claramente capaz para mudar a agulha da governação... Isto é a estabilidade, não é incerteza. É disto que os mercados gostam!
Lançar um desafio a três partidos para, numa semana, estabelecerem um compromisso de médio prazo sobre o controlo da dívida e do défice, a reforma do Estado, e as retomas do crescimento e do emprego – ou seja, para numa semana fazerem o que não foi feito em décadas – é surreal. Acrescentar que isso é tecnicamente muito fácil de executar é menos que sério e irresponsável: é brincadeira de mau gosto!
Admitir que, cortar um ano de mandato a um governo de coligação, já desfeito, é abrir caminho para que os partidos da coligação consensualizem um compromisso, seja ele qual for, é inverosímil. Esperar que os dois partidos que no regime disputam e dividem o poder há quatro décadas, numa altura destas, aceitem seriamente qualquer compromisso de médio prazo a um ano de eleições, é de quem não faz a mínima ideia do que está a fazer. Pensar que António José Seguro seria líder para estas andanças, é ignorância profunda.
Não havia uma única razão que emprestasse o mínimo de consistência ao seu desafio para a salvação nacional!
Quer isto dizer que Cavaco, o mais antigo político em funções, o de maior experiência política e de exercício do poder, que esteve em todos os rompimentos de todas – repito, de todas, porque até na última ele interveio, com a tal estória da lei de Gresham (a má moeda expulsa a boa) - as coligações ensaiadas pelo regime, indiscutivelmente o mais calculista de todos os políticos que o país conhece e conheceu, pode ser menosprezado ao ponto de lhe atribuir tantos e tão grosseiros erros numa única iniciativa?
Não. Claro que não!
Cavaco sabia bem que o que estava a fazer. Sabia que estava a lançar mais achas para a fogueira da crise, e a acentuar as dificuldades do país. Sabia que aquilo não ia dar em nada. Não era atrás da salvação nacional que corria, ele corria atrás da sua própria salvação!
Depois de um longo período em hibernação política, tinha-se deixado aprisionar pelo governo. Há muito que era refém de Passos e Gaspar. A demissão de Vítor Gaspar abriu-lhe a porta da cela e a revogada irrevogável decisão de Portas deixou-lhe a porta aberta, mas agora sem carcereiro por perto.
Abandonado o cárcere, Cavaco precisava de reunir as tropas, desmobilizadas por tanto tempo de hibernação e de sequestro. E esta era sem dúvida não "a solução que melhor serve o interesse nacional", como hoje referiu, mas a melhor solução para voltar a montar a sua máquina. Daí que logo na altura eu lhe tenha chamado prova de vida, a fazer lembrar as aparições de Cristo aos apóstolos, depois da ressurreição.
E foi ver como a estratégia foi eficaz e certeira. A máquina cavaquista ergueu-se rapidamente, deu resposta pronta e, em poucos dias, estava reabilitado um presidente que, dias antes, não passava de uma múmia. O país estava suspenso de negociações em que inguém negociava nada, e toda a gente fazia que dialogava sobre qualquer coisa. Que ninguém sabia o quê!
Correu tudo bem, tudo como previsto, ou melhor ainda... De todo o lado surgiam apoios e até a esquerda dava uma ajuda. Soares, então...
Não podia correr melhor … Deu até para uma escapadinha às Selvagens, a rir de tudo e de todos, e para, aí, voltar às suas deprimentes preciosidades. Desta vez as cagarras, depois das anonas, das vaquinhas e dos milagres de Fátima …
E agora, que tudo fica na mesma como se nada se tivesse passado, “o governo continua em funções com garantias reforçadas de coesão e solidez”, valendo-se da moção de censura da passada quinta-feira. E da esperada moção de confiança que o governo vai agora apresentar mas que foi ele próprio a anunciar.
Maior cinismo é impossível!
Não tenho qualquer dúvida que, no meio deste pantanal de hipocrisia, as eleições antecipadas eram a pior coisa que podia acontecer ao país. À excepção de todas as outras, como diria Churchil…
Alguém ficou com a sensação que se perderam três semanas?
Como numa telenovela, que é disso que se trata, após um namoro fracassado e como manda o argumento habitual, os namorados desavindos trocam acusações sobre de quem é a culpa de rotura na relação.
Terminou, na mesma forma desastrada e lamentável com que começou, a absurda e irresponsável iniciativa que o Presidente da República lançou e a que chamou compromisso de salvação nacional.
O presidente anunciou esta sua lamentável iniciativa, recorde-se, aos portugueses através de uma indecifrável comunicação ao país, depois de uma semana de reuniões com os partidos políticos. Não é sequer nessa forma rebuscada, obscura e ambígua de comunicar, que está o mal maior. O mal maior foi justamente não ter sequer manifestado a sua intenção nesses contactos com os partidos. Foi apanhá-los de surpresa, quando lhes devia ter previamente apalpado o pulso. Foi faltar-lhes ao respeito – mesmo por pouco que seja o respeito que merecem – e foi prescindir da oportunidade de, atempadamente, avaliar as probabilidades de sucesso da iniciativa que preparava.
O líder do PS, entalado e apertado por todos os lados, como facilmente se percebia desde o primeiro momento, sentiu-se tão aliviado com o rompimento das negociações que não resistiu a correr a comunicá-la ao país, em vez de a comunicar ao presidente, a quem, evidentemente, caberia tal incumbência. Teria de ser o presidente a dizer ao país que os partidos não chegaram a qualquer acordo e que a sua iniciativa falhara. E teria de ser Cavaco a interpretar esse desfecho à luz da comunicação que fizera quando a lançara!
Estes não são aspectos meramente formais. São institucionais e políticos!
E, claro, agora tudo está bem pior, como desde sempre se sabia que iria ficar. Mas a isso voltarei mais tarde...
As negociações entre os CDS, PSD e PS, não deram em nada. Difícil, mesmo surpreendente, se dessem em alguma coisa. E agora senhor Presidente?
É raro lermos uma opinião, ou uma crónica, com a qual concordamos, palavra por palavra. Em alemão, costuma dizer-se qualquer coisa como: ele/ela fala-me da alma. Aconteceu-me isso com este texto de Henrique Raposo, no Expresso. E é ler o resto, que vale a pena!
No Parlamento o PS apoia a moção de censura PCP (Verdes) e cá fora está disponível para negociar um possível acordo com o PSD/CDS, que pode permitir que o governo se mantenha até 2014. Não percebi?