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No antigamente do velho regime Marcelista havia personagens que os tinham no sítio e que apesar de muito odiadas não fugiram às responsabilidades.
No dia 26 de Abril de 1974, o seguinte à revolução, fui às aulas no IST e encontro um bando de alunos a vociferar, em frente à porta fechada do gabinete do conselho de direção, o slogan mais grafitado nas paredes do Técnico: ‘Morte ao Sales Luís’.
Este ódio de morte era justificado porque havia 3 carrinhas cheias de polícias de choque, e com cães, que estavam em permanência no recinto mais as câmaras de filmar nos telhados para marcar os cabecilhas, mais os gorilas-contínuos da PIDE/DGS, mais as bordoadas sofridas pelos alunos a seguir às RGAs (reunião geral de alunos) unidos na vontade de não ir à tropa para não perder 2 ou 4 anos de vida ou a vida toda de uma assentada.
Sem me dar conta fui sendo empurrado até à porta que se abriu mesmo à minha frente. Entrámos ordeiramente e vociferando ‘Morte ao Sales Luís’ fomo-nos encostando às paredes até que enchemos a sala. Alguns, mais entusiasmados, até subiram para cima da longa mesa em U à volta da qual se sentavam os professores do conselho diretivo, com o Sales Luís no topo.
Consciente de que não tinha mais nada a fazer naquela sala, já depois das despedidas e agradecimentos que sem dúvida terá dedicado aos seus colegas, o distinto goês passa, sereno e de olhar levantado, bem rente à fila de alunos que brandiam os punhos sobre a sua cabeça ao mesmo tempo que lhe enchiam os ouvidos com as ameaças de ‘Morte ao Sales Luís’.
Já na rua fora do Técnico um aluno muito corajoso deu-lhe um pontapé no cú. Estava a aprender a destacar-se na cena política.
Ele podia ter ficado em casa, ou fugido para Espanha mas, mesmo cheio de medo, ele preferiu ir lá e arrostar com as consequências. Ele passou por ser fascista mas agora apenas me parece ter sido um professor/diretor, de princípios, metido num ambiente adverso que nem ele nem os alunos escolheram.
E onde andam os estudantes de hoje? nada de panfletos, RGAs, manifs, greves, nada ... é cada um por si. Já interiorizaram que a deportação/emigração é o melhor que lhes pode acontecer.
Portugal fica mais pobre por exportar bocados de futuro e eles não vão ajudar a mudar Portugal. Que raiva eles devem ter de nós por termos deixado isto chegar ao ponto em que estamos.