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865 Anos da Conquista de Santarém (3)

por Cristina Torrão, em 17.03.12

Com o texto de Bartolomé Bauzá encerro a série evocativa da Conquista de Santarém. Bartolomé Bauzá escreve em castelhano (ou espanhol?), pois ele receia que o seu português não chegue para uma escrita correcta. Compara o romance (ou novela, como ele diz) histórico com a História limitada às datas e aos factos, esquecendo a paixão, o sofrimento e o sangue. Lembra-nos que o cronista medieval também se servia da sua arte para fazer um relato mais excitante. Inventava? «Qué más da?» É a História-Ciência mais exacta do que aquela que nos faz sentir as emoções, ouvir os gritos, cheirar os aromas?

 

Felizmente, hoje em dia, os historiadores estão mais sensibilizados para questões desse tipo. É, de qualquer maneira, uma discussão interessante, que Bartolomé apresenta na sua maneira original:

 

"El debate es antiguo.

El paradigma actual es presentar una historia basada en

hechos comprobables,

fechas,

cifras,

referencias cruzadas…

 

Pero no fue siempre así.

 

Antes, la Historia era narrada y oída:

Vivida…

 

De alguna manera, el narrador colaboraba en la gesta histórica.

En última instancia,

su arte,

su don,

su elocuencia,

su saber decir

estaban al servicio de los protagonistas.

Y de su audiencia, claro.

 

Detalles magnificados,

inventados,

 ¿qué más da?:

si dan vida a hechos que los HISTORIADORES DE VERDAD han vuelto fríos."

 

Ler o texto completo aqui

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865 Anos da Conquista de Santarém (2)

por Cristina Torrão, em 16.03.12

كان من الجيد؟

A conquista de Santarém, sem a sua vertente árabe, não é a mesma coisa…

 

Foi bom?

 

por Exilado no Mundo

 

Talvez fruto de uma maturidade conferida pelos seus já quase 40 anos de idade, o mesmo Afonso que em tempos tivera o descaramento de lutar contra a sua própria mãe, começava agora a dar mostras de uma sensibilidade — ou insegurança, quem sabe — que anos antes teria sido difícil de se lhe reconhecer.

Depois de conquistado o castelo escalabitano, Afonso tomou para si a moura mais encantadora do imenso grupo de jovens desamparadas e recolheu com ela aos seus improvisados aposentos. Seria natural que, após uma noite na qual saciou a seu bel-prazer as mais profundas necessidades de homem no ativo, Afonso recompusesse as vestes, colocasse a espada à cintura e saísse para reunir as tropas. Os preparativos com vista à grande conquista de Lisboa, já a poucas dezenas de léguas de distância, assim o exigiam. 

No entanto, na hora de se afastar do circunstancial leito de conquistas íntimas, Afonso hesitava. E contemplava a bela moura ainda deitada, qual troféu arrebatado pelo lado pessoal deste multifacetado e bem-sucedido conquistador. Mas para Afonso não bastava. Precisava de saciar no espírito aquela que ultimamente se tornara uma dúvida tão frequente quanto a sua necessidade de satisfação corporal.

Os seus parcos conhecimentos em língua árabe nem por sombras lhe permitiam questionar a jovem moura — e menos ainda entender o que quer que ela lhe pudesse responder. Por gestos, tornava-se ainda mais difícil. Restava-lhe uma única possibilidade. Mandou chamar o especialista em língua árabe e transmitiu-lhe a pergunta que deveria ser feita. De imediato, o tradutor, sem grandes rodeios, inquiriu-a: كان من الجيد؟

Afonso nem precisou de esperar pela tradução da resposta. O afirmativo menear de cabeça da jovem e o generoso sorriso que lhe acompanhou o gesto foram mais do que suficientes para o seu necessário esclarecimento. Afonso sentiu-se mais confiante do que nunca.

 

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865 Anos da Conquista de Santarém (1)

por Cristina Torrão, em 15.03.12

Ser um carvalho quase milenário e ter assistido aos acontecimentos da madrugada de 14 para 15 de Março de 1147:

 

"Eu sou um ser que vive, entenda-se. Os meus braços alimentam outros seres viventes e dão sombra a quem se senta no meu colo. Um carvalho pode ser um grande amigo, a quem confiam os seus segredos. As crianças em meu redor são a energia que me aquece e as juras gravadas no meu tronco, memórias antigas.

Entre elas, a daquele dia: nada se sentia no ar, nada do que estava para acontecer. O frio cortante do fim de tarde cobria o som dos cascos de cavalos a chegar a Santarém.

À noite, do alto da minha copa, vi três vultos a aproximarem-se das muralhas com uma escada enorme; a partir daí os dados estavam lançados…O estranho neste ataque era o mudo entendimento entre pares. A camaradagem entre os cavaleiros e o rei era a força por detrás da razia, que parecia fulminante.

No final, a lua, minha companheira, tão testemunha do massacre como eu, escondeu-se e com ela foram-se os gritos, os medos e os ódios deixados para trás. Em cada pedra das muralhas um lamento se gravou, e na bandeira então içada, ondulavam as cores da vitória!

A euforia dos novos amos alimentou-se do mito de tesouros escondidos e neste planalto mirante de grandes e férteis planícies, a vida ergueu-se novamente como os novos rebentos da Primavera.

Mesmo passado 865 anos, este episódio continua presente em mim. A conquista de Santarém fez-se por pessoas comuns que ousaram dar liberdade aos seus sonhos, mas o código de honra dos cavaleiros foi ignorado e, em vez disso, a força invisível que eu senti, naquela madrugada de 15 de Março, tornar-se-ia o prenúncio de uma identidade futura, cujas raízes se cravavam na terra funda."

 

Ana Sofia Allen

11/03/2012

 

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