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Foi uma noite de insónias, sempre à procura de uma luzinha que explicasse como é que, quando já a dois se não entendem, Cavaco consegue ver estabilidade num compromisso de governação a três. Já quase vencido pelo sono, dei um salto na cama com um grito de eureka que se ouvia pela casa toda.
Só depois percebi que o grito era meu. Que se me tinha feito luz. Que descobrira a chave do enigma de uma noite inteira. De repente senti-me invadido por uma felicidade imensa, senti-me inteligente como nunca antes. Afinal, enquanto o país inteiro ainda anda à procura de perceber o que o presidente dissera, quando os maiores cérebros deste país ainda se acotovelam em interpretações das palavras de Cavaco, eu, o mais comum dos comuns humanos, de quem o Criador se esqueceu completamente na hora de distribuir o que de melhor tinha para espalhar por esta categoria animal, tinha conseguido chegar primeiro e mais longe que todos. Eu tinha conseguido ir além daquelas palavras esfíngicas de um presidente que teima em testar permanentemente a inteligência dos seus súbditos, ao mesmo tempo que exibe os superiores dotes das suas meninges que o levam para bem próximo daquele rei da famosa história (“a roupa nova do rei”) do dinamarquês Hans Chistian Andersen
As comunicações de Cavaco constituem, de resto, excelentes réplicas desta história do rei que vai nu. Foi precisamente quando os meus pensamentos me trouxeram até aqui que refreei o meu entusiasmo, já quase narcisista. Era isso: afinal eu não estava a ser mais que o miúdo da história do escritor dinamarquês que gritava que o rei ia nu!
Regressei então à minha condição de comum entre os comuns, ainda a tempo de me resgatar a mim próprio a uma noite de insónias que já ia longa.
Ah! E já me esquecia de partilhar convosco a minha descoberta. O meu grito eureka que acabou n`o rei vai nu. É simples – o rei vai mesmo nu – é que, em coligação com o PSD, o CDS tenta-se pelo PS. Poderá não cometer adultério, mas está em permanente pecado de pensamento; o corpo está ali, no leito conjugal, mas o pensamento voa para o PS. Ora, com os três partidos envolvidos na solução governativa, o CDS fica sem ninguém para flirtar. Muito mais calmo, sem devaneios… É a estabilidade do menage à trois, porque a coisa não dá para swing!

Às vezes uma fotografia faz prova de vida. Noutras, é a própria prova de vida que se faz à fotografia...
O presidente falou. E disse o que se esperava e o que não se esperava.
Quando disse o que se esperava não disse nada, nem sequer que Bruxelas, Berlim ou Frankfurt já tinham dito tudo e que nada tinha a acrescentar.
Quando disse o que não se esperava disse muita coisa. Disse que nesta altura a estabilidade é um valor supremo, mas lançou a instabilidade. Que só não é maior porque o tipo que dizem que é primeiro-ministro, que até aqui não aceitava nada, agora aceita tudo. Fosse outro - qualquer outro – e, quando Cavaco estivesse a atravessar a porta da sala de onde se dirigiu ao país, já estaria à entrada do palácio de Belém para lhe entregar a demissão. Disse que era contra eleições antecipadas, mas marcou a data das eleições antecipadas. Disse que queria trazer o PS para o compromisso, mas o que fez foi passar-lhe mais uma rasteira. Entalá-lo e entalar Seguro ainda mais!
Mas ficou bem na fotografia. Que era, sem dúvida, o seu principal objectivo. Cavaco quis fazer prova de vida, e logo em grande. Com uma proposta de compromisso de salvação nacional, de infalível popularidade!
Pena que não valha nada. Que nada tenha que funcione. E que, no fim, como ele próprio reconheceu, lá tenha que ir procurar uma daquelas soluções que a Constituição tem para estas coisas…