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Desde muito cedo que a manada humana vive numa relação imanente com o Divino; ao enterrar os seus mortos, o que começou por ser uma defesa em relação aos predadores, para que estes não se habituassem a comer carne humana, passou a ter também uma componente de culto ao acompanhar os seus mortos de alguns objectos pessoais, isto ainda antes do homem conhecer a palavra. Foi o primeiro culto do além.
Os judeus acreditam que Deus criou o mundo pensando em Hebraico. O pensamento e a criação ficam assim subordinados à palavra e através dela à cultura, usos e costumes da época. É o Deus pessoal.
Hoje sabemos que não tem que ser assim, pois é possível comunicar e organizar pensamentos sem o recurso à palavra, como decorre desta experiência com doentes em estado vegetativo.
Existe uma tecnologia que permite ver o cérebro a pensar, ou, mais precisamente, os fluxos de sangue para determinadas zonas cerebrais consoante estas são activadas para dar resposta a determinadas tarefas, que podem ser tão simples como responder "sim" ou "não" a uma pergunta.
O autor bíblico - desta passagem, que fecha este texto, em que Caim fala com Abraão sobre a destruição de Sodoma - entendeu a justiça divina à luz da sua época, em que os conquistadores não poupavam as crianças, e Saramago entendeu estas mesmas palavras à luz da sua consciência cristã.
Penso que havia inocentes em sodoma e nas outras cidades que foram queimadas, Se os houvesse, o senhor teria cumprido a promessa que me fez de lhes poupar a vida, As crianças, disse caim, aquelas crianças estavam inocentes, Meu deus, murmurou abraão e a sua voz foi um gemido, Sim será o teu deus, mas não foi o delas.
Se era preciso polémica e barulho, o Nobel Saramago sabe como a fazer. Eu acredito que com a idade e o estauto que tem, isto não seja uma jogada publicitária.
Que o debate comece, as trocas de palavras, a polémica, o insulto, o elogio e o barulho.
(Como não me revejo em nenhum patamar, nem está errado nem está certo, prefiro não comentar as ideias do escritor.)