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Caim

por manuel gouveia, em 06.02.10

No princípio era o Verbo.
 

Desde muito cedo que a manada humana vive numa relação imanente com o Divino; ao enterrar os seus mortos, o que começou por ser uma defesa em relação aos predadores, para que estes não se habituassem a comer carne humana, passou a ter também uma componente de culto ao acompanhar os seus mortos de alguns objectos pessoais, isto ainda antes do homem conhecer a palavra. Foi o primeiro culto do além.

 

Os judeus acreditam que Deus criou o mundo pensando em Hebraico. O pensamento e a criação ficam assim subordinados à palavra e através dela à cultura, usos e costumes da época. É o Deus pessoal.

 

Hoje sabemos que não tem que ser assim, pois é possível comunicar e organizar pensamentos sem o recurso à palavra, como decorre desta experiência com doentes em estado vegetativo.

Existe uma tecnologia que permite ver o cérebro a pensar, ou, mais precisamente, os fluxos de sangue para determinadas zonas cerebrais consoante estas são activadas para dar resposta a determinadas tarefas, que podem ser tão simples como responder "sim" ou "não" a uma pergunta.

A palavra surge assim depois, como instrumento.
 

O autor bíblico - desta passagem, que fecha este texto, em que Caim fala com Abraão sobre a destruição de Sodoma - entendeu a justiça divina à luz da sua época, em que os conquistadores não poupavam as crianças, e Saramago entendeu estas mesmas palavras à luz da sua consciência cristã.

 

Penso que havia inocentes em sodoma e nas outras cidades que foram queimadas, Se os houvesse, o senhor teria cumprido a promessa que me fez de lhes poupar a vida, As crianças, disse caim, aquelas crianças estavam inocentes, Meu deus, murmurou abraão e a sua voz foi um gemido, Sim será o teu deus, mas não foi o delas.

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Lançamento da polémica

por Daniel João Santos, em 18.10.09

Se era preciso polémica e barulho, o Nobel Saramago sabe como a fazer. Eu acredito que com a idade e o estauto que tem,  isto não seja uma jogada publicitária.

 

José Saramago afirmou hoje, em Penafiel, que “a Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana”


O escritor criticou também o conceito de inferno: "No Catolicismo os pecados são castigados com o inferno eterno. Isto é completamente idiota!”. “Nós, os humanos somos muito mais misericordiosos.


Quando alguém comete um delito vai cinco, dez ou 15 anos para a prisão e depois é reintegrado na sociedade, se quer”, disse.


“Mas há coisas muito mais idiotas, por exemplo: antes, na criação do Universo, Deus não fez nada. Depois, decidiu criar o Universo, não se sabe porquê, nem para quê. Fê-lo em seis dias, apenas seis dias. Descansou ao sétimo. Até hoje! Nunca mais fez nada! Isto tem algum sentido?”, perguntou.

 

Que o debate comece, as trocas de palavras, a polémica, o insulto, o elogio e o barulho.

 

(Como não me revejo em nenhum patamar, nem está errado nem está certo, prefiro não comentar as ideias do escritor.)

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