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As minhas conversas com S. Pedro (IV)

por manuel gouveia, em 05.04.09

Hoje encontrei uma velhota, que no seu ar distraído, típico das pessoas de idade, se encaminhou directamente para o início da fila. Aqui em cima, às portas do Céu, não existe a noção de tempo, nem o conceito de ontem ou de hoje, apenas os recém-chegados ainda presos à versão terrena vão dizendo, “Faleci hoje de manhã.”, “Ah! Eu ontem à noite”. Se digo também “hoje” é para melhor me confundir com os recém-chegados e assim ter mais hipóteses de ser admitido.

 
A velhota que encontrei apresentara um protesto junto do Cerafista de serviço, este remeteu-a para o chefe de departamento que lhe propôs uma exposição ao director e foi aí que a velhota, com aquela intuição que persegue as mulheres até ao fim dos tempos, me pediu: “O senhor, que me parece já cá estar há algum tempo, pode ajudar-me?”
 
Admito que não me tinha apercebido que o Céu fosse tão hierarquizado. Esclarece-me o Cefarista:
-Recebemos aqui uns consultores da Mackinzey, e como não os podíamos admitir, propuseram-se reestruturar a nossa organização, para termos um melhor ganho de produtividade.
-E já correram com eles para o inferno? – pergunto eu.
- Ah! Não, agora estão a ensinar-nos a sermos uma organização menos rígida e compartimentada. Estamos a aprender a ser uma organização mais transversal.
 
Viro-me para a velhota e pergunto-lhe se agora, que o Céu foi tomado pelos assessores do Sócrates e pelos consultores da Mackinzey, ainda pretende entrar… eu começo a ter as minhas dúvidas!
 
Acredito que um dia nos vão devolver o Céu!

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As minhas conversas com S. Pedro (IV)

por manuel gouveia, em 29.03.09

Aqui continuo eu ás portas do céu barrado por um funcionário que interpreta com excessivo zelo o significado do quinto mandamento. Tenho diante de mim toda a eternidade e a eternidade é feita de muito tempo, nela cabem todos os minutos e os segundos, que como se sabe são mais do que as horas e os dias, e cabem também não só o tempo presente e o passado, mas também o futuro. O conceito da eternidade é a ausência do tempo e nela convivem todas as épocas no mesmo instante.

As minhas roupas não se adaptam a esta imponderabilidade e deterioram-se muito rapidamente. Na fila apercebem-se que eu já ando por aqui há muito tempo e expulsam-me sem piedade. Com um pouco de sorte tomam-me por um mendigo recém-chegado e impõe-me uma repulsiva distância. Não é fácil estar rodeado de tantos homens santos.
 
- Você já está aqui há muito tempo. – oiço atrás de mim.
Viro-me e dou de caras num homem que seguramente sofre do mesmo destino que eu, ele continua:
- Tem que ter cuidado com os Serafins, eles patrulham as entradas… tem que se esconder.
- Esconder? Mas como?
- Descendo, voltando lá abaixo.
- Como um fantasma para assombrar os vivos?
O meu interlocutor suspira e confirma-me:
- É a única forma de escaparmos aos Serafins.
Penso um pouco, bem que gostaria de assombrar algumas pessoas, o meu patrão, o antigo chefe, a vizinha do 2º B,…
- O que é que lhe fez a vizinha do 2º B? – pergunta-me o meu companheiro.
- Nada. – respondo. – Mas gostaria de a espreitar no banho…

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As minhas conversa com S. Pedro (III)

por manuel gouveia, em 22.03.09

Lembram-se de mim? Estou aqui na fila ás portas do céu tentando desesperadamente entrar. Sou barrado por um zeloso funcionário que utiliza o pretexto de eu ter acidentalmente atropelado um gato, para me acusar de ter violado o quinto mandamento: Não matarás.

 
- Você outra vez? – protestou o Cefarista, que conforme me explicou, quer dizer assistente de Cefas. – Estás com azar, eu ainda não atingi o meu objectivo diário para o número de entradas rejeitadas!
- Estive a pensar. Se esta é a única fila porque é que o S. Pedro nunca aparece? – pergunto já desconfiado daquela organização.
- Ora esta é a fila do regime geral. – respondeu o Cefarista de serviço.
- Regime geral?
- Sim, diga-me uma coisa, para além de se ter portado bem, fez algum PPI?
- PPI?
- Sim, plano pessoal de indulgências.
- Mas eu, pensei que bastava portar-me bem, cumprir o que aprendi na catequese…
O Cefarista decidiu-se por mostrar alguma compreensão pelo meu caso.
- Sim, eu percebo. Houve tempos em que era a intenção que contava. Se não foi com má intenção, pumba, pecado perdoado. Foram os tempos das indulgências gordas e sabe o que aconteceu?
- Imagino… - murmuro percebendo que não me seria concedido nenhum estado de graça.
- O que aconteceu é que ficámos cheios até às costuras. Não podemos continuar a aceitar todos, temos que ser mais rigorosos. Estreitar os níveis de tolerância…
- Mas isso não é justo. – Protesto com veemência. – Assim, está no Céu quem tenha cometido pecado igual e eu não posso entrar.
- Pois. – responde-me o Cefarista. – Você teve azar. Mas acredite, não existe alternativa! Mas para seu consolo leia Lucas 18,11.
 
E dou comigo a ler a passagem do Fariseu que no meio do templo, de pé, reclama a indulgência de Deus pelos seus bons actos, ao contrário daquele publicano, atirado ao chão pelos seus pecados, chorando pelo perdão de Deus. Ao crime que não cometi, e por apenas pedir justiça, junta-se a acusação de ser arrogante!

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As minhas conversas com S. Pedro (II)

por manuel gouveia, em 15.03.09

Aqui estou eu às portas do Céu tentando a minha entrada. Sou barrado com o argumento de ter violado o quinto mandamento: Não matarás! Mas eu só tinha atropelado um gato e por acidente. Debato-me com as alterações introduzidas desde os meus tempos de catequese. Clamo por misericórdia:

 

- Isso de só aceitarem a Bíblia Católica parece-me altamente irregular! – respondo já irritado – Olhe, em João 14, 2, Cristo disse: a casa de meu Pai tem muitas moradas.

O homem não me achou piada e respondeu-me secamente:

- Isso foi antes do pessoal daqui ter investido no Banco Ambrosiano, agora só aceitamos a versão Católica. – e como eu mostrasse um ar reprovador, justificou-se: - O que é que quer? Com as cotas impostas nas promoções, devido ao sistema de avaliação, a maior parte de nós não tem aumentos de ordenados e depois existem os cortes nas reformas…

- Mas S. Pedro..

- Já lhe disse que não sou o S. Pedro, se quiser chame-me Cefarista.

- Cefarista? – nunca tinha escutado tal termo, sentia-me perdido!

- Sim, quer dizer assistente de Cefas, João 1, 42. – disse o homem endireitando-se consciente da grandeza do cargo que ocupava.

- Muito bem senhor Cefarista. - sentia, mesmo com toda a eternidade pela frente, que o meu tempo se esgotava. Tinha que mudar de abordagem - Se eu já estou condenado, sem qualquer apelo, porque vim parar a esta fila?

- Ah! Recebemos aqui uns assessores do Sócrates e estamos a implementar o Simplex. Mas enquanto não recebermos os computadores todos vêm para esta fila, depois será tudo pela net, é muito mais fácil!

- Afinal só existe esta fila? E o S.Pedro? Onde está?

O homem já desespera, enquanto o pessoal na fila atrás de mim começa a insultar-me, defendo-me:

- Calma, vocês se querem entrar é melhor portarem-se bem! – recordo com ar ameaçador.

Uma velha acerta-me com um guarda-chuva na cabeça e resmunga:

- Sai da fila, merdoso. Aqui já não temos que nos portar bem, só contam os pecados que cometemos lá em baixo.

Os meus companheiros de fila expulsam-me ao pontapé, mas não será desta que me vou dar por vencido e regresso ao fim da fila.

  (a chegada)

 

 

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As minhas conversas com S. Pedro

por manuel gouveia, em 08.03.09

 

Uma dor lancinante atirou-me ao chão, seguida de um aperto no peito que não me deixava respirar, depois fui acolhido por uma imensa paz. Já passou! Pensei. Só depois me apercebi de que já não precisava de respirar. Foi então que em mim se fecharam os olhos.
 
Abri os olhos e dei de caras com um homem velho vestido de branco e de longas barbas.
- Despache-se, tem uma longa fila atrás de si. - resmungou sem cerimónias.
- É isto o Céu? - balbuciei com algum temor. - O senhor é o S. Pedro?
O homem deixou-se rir, como se eu tivesse dito uma asneira e corrigiu-me com alguma aspereza: - S. Pedro só atende os que têm direito a entrar.
Dei um salto. - Mas eu não tenho o direito a entrar?
- Quinto mandamento Êxodo 20, 13. Não matarás.
- Mas deve haver algum engano! Eu não matei ninguém!
O homem consultou rapidamente um grande livro e respondeu-me:
- 12 de Fevereiro de 98, atropelou mortalmente um gato.
- Um gato? E isso conta? Até foi um acidente.
- Dantes não contava, mas fomos forçados a rever as condições de acesso. É da crise, estamos cheios!
- Pensei que a crise favorecesse mais o inferno.
- Também! O purgatório é que está vazio. Com a crise as pessoas têm tendência para actos desesperados ou de solidariedade, por vezes até heróicos! A apatia não se dá bem com a crise. Por isso estamos cheios!
- Mas tratando-se de um acidente e de um gato? No meu tempo de catequese os gatos não contavam!
- Aqui não defendemos direitos adquiridos!
Apercebo-me pela sua cara que não vou ter sorte e em desespero de causa contra-ataco:
- Génesis 18, 26, os dez justos que poderiam ter salvo Sodoma, não terei eu cometido em toda a minha vida dez actos de justiça que me redimam?
- Lamento mas devias de conhecer os mandamentos! Os gatos não estão nas cláusulas acessórias.
- Cláusulas acessórias? Nunca ouvi falar!
O homem começou a mostrar alguma impaciência, enquanto a fila crescia atrás de mim.
- Mas não leste as letras miudinhas no fim dos dez mandamentos? Vejo que deves ter uma dessas Bíblias protestantes! Aqui só aceitamos a Bíblia Católica.
E com um gesto definitivo indicou-me que devia de me encaminhar para o Inferno e deixar a fila. Mas eu não estava disposto a passar toda a eternidade no fogo do Inferno…
 
(continua)

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