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Hoje encontrei uma velhota, que no seu ar distraído, típico das pessoas de idade, se encaminhou directamente para o início da fila. Aqui em cima, às portas do Céu, não existe a noção de tempo, nem o conceito de ontem ou de hoje, apenas os recém-chegados ainda presos à versão terrena vão dizendo, “Faleci hoje de manhã.”, “Ah! Eu ontem à noite”. Se digo também “hoje” é para melhor me confundir com os recém-chegados e assim ter mais hipóteses de ser admitido.
Aqui continuo eu ás portas do céu barrado por um funcionário que interpreta com excessivo zelo o significado do quinto mandamento. Tenho diante de mim toda a eternidade e a eternidade é feita de muito tempo, nela cabem todos os minutos e os segundos, que como se sabe são mais do que as horas e os dias, e cabem também não só o tempo presente e o passado, mas também o futuro. O conceito da eternidade é a ausência do tempo e nela convivem todas as épocas no mesmo instante.
Lembram-se de mim? Estou aqui na fila ás portas do céu tentando desesperadamente entrar. Sou barrado por um zeloso funcionário que utiliza o pretexto de eu ter acidentalmente atropelado um gato, para me acusar de ter violado o quinto mandamento: Não matarás.
Aqui estou eu às portas do Céu tentando a minha entrada. Sou barrado com o argumento de ter violado o quinto mandamento: Não matarás! Mas eu só tinha atropelado um gato e por acidente. Debato-me com as alterações introduzidas desde os meus tempos de catequese. Clamo por misericórdia:
- Isso de só aceitarem a Bíblia Católica parece-me altamente irregular! – respondo já irritado – Olhe, em João 14, 2, Cristo disse: a casa de meu Pai tem muitas moradas.
O homem não me achou piada e respondeu-me secamente:
- Isso foi antes do pessoal daqui ter investido no Banco Ambrosiano, agora só aceitamos a versão Católica. – e como eu mostrasse um ar reprovador, justificou-se: - O que é que quer? Com as cotas impostas nas promoções, devido ao sistema de avaliação, a maior parte de nós não tem aumentos de ordenados e depois existem os cortes nas reformas…
- Mas S. Pedro..
- Já lhe disse que não sou o S. Pedro, se quiser chame-me Cefarista.
- Cefarista? – nunca tinha escutado tal termo, sentia-me perdido!
- Sim, quer dizer assistente de Cefas, João 1, 42. – disse o homem endireitando-se consciente da grandeza do cargo que ocupava.
- Muito bem senhor Cefarista. - sentia, mesmo com toda a eternidade pela frente, que o meu tempo se esgotava. Tinha que mudar de abordagem - Se eu já estou condenado, sem qualquer apelo, porque vim parar a esta fila?
- Ah! Recebemos aqui uns assessores do Sócrates e estamos a implementar o Simplex. Mas enquanto não recebermos os computadores todos vêm para esta fila, depois será tudo pela net, é muito mais fácil!
- Afinal só existe esta fila? E o S.Pedro? Onde está?
O homem já desespera, enquanto o pessoal na fila atrás de mim começa a insultar-me, defendo-me:
- Calma, vocês se querem entrar é melhor portarem-se bem! – recordo com ar ameaçador.
Uma velha acerta-me com um guarda-chuva na cabeça e resmunga:
- Sai da fila, merdoso. Aqui já não temos que nos portar bem, só contam os pecados que cometemos lá em baixo.
Os meus companheiros de fila expulsam-me ao pontapé, mas não será desta que me vou dar por vencido e regresso ao fim da fila.