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As aventuras da cozinheira Miquelina – a recusa

por manuel gouveia, em 01.04.09

- Bom dia sr. Engenheiro temos aqui mais uma vez um problema com a nossa Miquelina. Recusou-se a servir o almoço à Drª Graça.

- E com que base fez ela isso?
- A Drª Carla foi a primeira a chegar. E a Dª Miquelina diz que a instituição só tem obrigação de fornecer uma refeição à técnica de serviço ao refeitório. As outras, como ganham bem, que vão comer fora.
- Onde foi a Dª Miquelina buscar tal ideia?
- Como o sr. Engenheiro sabe, ficou acordado que todos os dias uma técnica acompanhava os almoços, para vigiar o comportamento dos nossos miúdos, e fixou-se uma escala. A Dª Miquelina entende que só uma delas está de serviço, e só essa tem direito ao almoço. Até faz algum sentido, desta vez…
- Mas quem é a Dª Miquelina, para decidir isso?
- Então sr. Engenheiro, desde que ela assumiu a chefia da cozinha que tem corrigido algumas situações que ela considerava incorrectas.
- Ó Paulo Emanuel, já lhe disse que ninguém a nomeou chefe e o facto de ser agora a cozinheira mais antiga não a transforma em chefe! Mas diga-me lá, e você onde come? Não faça essa cara, confesse lá que come no refeitório… O refeitório está aberto a todos!
- A Drª Graça quer mover um processo à Dª Miquelina, mas diz como o sr. Engenheiro é o protector dos pobres, não vale a pena.
- Não aprecio esse tom Paulo Emanuel, tu também achas que eu protejo os pobres?
- Acho que o sr. Engenheiro fala dos pobres sem saber o que é a pobreza.
- Falo do que vejo, Paulo Emanuel. Quanto à sabedoria, ela falta-nos a todos, ou não nos deixaríamos rodear de tanta pobreza! Quem trabalha, em que lado for, deve auferir um salário que o redima na sua dignidade e não tenha que se julgar chefe para erguer a cabeça ou proibir seja o que for para se sentir bem.

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- Bom dia sr. Engenheiro, temos aqui mais uma vez um problema com a nossa cozinheira Miquelina.

- O que aconteceu à Miquelina desta vez, Paulo Emanuel?
- Deu uma chapada na Josefina, por uso impróprio de linguagem.
- Como? Mas uso impróprio da linguagem, ou seja, asneira da grossa é o que mais se ouve naquela cozinha! Como foi isso?
- Como o sr. Engenheiro sabe a Dona Clementina reformou-se e agora a Miquelina é a cozinheira mais antiga e portanto julga-se a chefe e como chefe não admite palavreado.
- Mas onde foi ela buscar essa ideia? Ninguém a nomeou e acima de tudo, como sabes, não temos dinheiro!
- Ninguém a nomeou nem ela vai pedir mais dinheiro, mas é um direito que lhe assiste, agora é a vez dela de ser a chefe!

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As aventuras da cozinheira Miquelina – o furto

por manuel gouveia, em 30.03.09

- Bom dia sr. Engenheiro, seja bem-vindo à reunião da nossa Instituição.

- Bom dia Paulo Emanuel, o que temos hoje para além do habitual?
- Temos aqui um dos casos que o sr. Engenheiro não gosta. A nossa cozinheira Miquelina foi apanhada a… como é que o sr. Engenheiro diz?... já sei, apanhada a desviar queijo e fiambre do frigorifico.
- Presumo que em grande quantidade…
- Lá está o sr. Engenheiro. Uma meia dúzia de fatias para os filhos.
- Estou a ver. Quanto ganha a Miquelina?
- Pouco mais de 400€, mas sr. Engenheiro isso não desculpa ninguém, lá em casa éramos 10 irmãos e os meus pais sempre foram pessoas honestas.
- Mas o teu pai sempre pôs uma batata ou uma couve na mesa para o vosso jantar. Isso hoje não é possível. As pessoas não têm um quintal para uma pequena horta. O marido da Miquelina continua desempregado?
- Propõe que ignoremos o sucedido, então.
- Não, faça um comunicado alertando para o facto dos artigos serem para consumo exclusivo da casa.
- Toda a gente se vai rir de si sr. Engenheiro. Eu sei que o senhor já está habituado, mas olhe que esta gente não tem juízo. A Miquelina é capaz de ir tomar o pequeno almoço ao café em frente!
- Paulo, quanto ganhas tu? Quase 2.000 euros? E a tua mulher continua empregada e o teu filho continua a ser um bom aluno?
- Não meta a minha família nisto!
- Paulo o que te quero dizer é que tu, não ganhando uma fortuna, ganhas o suficiente para que com um pouco de juízo, possas sonhar em dar um futuro ao teu filho. Ter uma vida cómoda e até pensar numa ida ao Algarve nas férias. A ti o sistema permite-te ter juízo.
A Miquelina apenas sonha com um emprego para o seu marido. Teve os filhos que não quis abortar, porque lhe dissemos que isso era feio, e agora por vezes nem uma couve tem para lhes por em cima da mesa. Quando se é mais do que pobre, ou seja, quando apesar de se trabalhar não se tem o mínimo para o sustento do dia a dia, as pessoas desligam. Não se pode pedir juízo aos deserdados da vida. A miséria consome-os, na moral e no bom senso. Mais do que nada ter, é o não se poder sonhar que constitui a verdadeira obscenidade da miséria.

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