- Bom dia sr. Engenheiro, seja bem-vindo à reunião da nossa Instituição.
- Bom dia Paulo Emanuel, o que temos hoje para além do habitual?
- Temos aqui um dos casos que o sr. Engenheiro não gosta. A nossa cozinheira Miquelina foi apanhada a… como é que o sr. Engenheiro diz?... já sei, apanhada a desviar queijo e fiambre do frigorifico.
- Presumo que em grande quantidade…
- Lá está o sr. Engenheiro. Uma meia dúzia de fatias para os filhos.
- Estou a ver. Quanto ganha a Miquelina?
- Pouco mais de 400€, mas sr. Engenheiro isso não desculpa ninguém, lá em casa éramos 10 irmãos e os meus pais sempre foram pessoas honestas.
- Mas o teu pai sempre pôs uma batata ou uma couve na mesa para o vosso jantar. Isso hoje não é possível. As pessoas não têm um quintal para uma pequena horta. O marido da Miquelina continua desempregado?
- Propõe que ignoremos o sucedido, então.
- Não, faça um comunicado alertando para o facto dos artigos serem para consumo exclusivo da casa.
- Toda a gente se vai rir de si sr. Engenheiro. Eu sei que o senhor já está habituado, mas olhe que esta gente não tem juízo. A Miquelina é capaz de ir tomar o pequeno almoço ao café em frente!
- Paulo, quanto ganhas tu? Quase 2.000 euros? E a tua mulher continua empregada e o teu filho continua a ser um bom aluno?
- Não meta a minha família nisto!
- Paulo o que te quero dizer é que tu, não ganhando uma fortuna, ganhas o suficiente para que com um pouco de juízo, possas sonhar em dar um futuro ao teu filho. Ter uma vida cómoda e até pensar numa ida ao Algarve nas férias. A ti o sistema permite-te ter juízo.
A Miquelina apenas sonha com um emprego para o seu marido. Teve os filhos que não quis abortar, porque lhe dissemos que isso era feio, e agora por vezes nem uma couve tem para lhes por em cima da mesa. Quando se é mais do que pobre, ou seja, quando apesar de se trabalhar não se tem o mínimo para o sustento do dia a dia, as pessoas desligam. Não se pode pedir juízo aos deserdados da vida. A miséria consome-os, na moral e no bom senso. Mais do que nada ter, é o não se poder sonhar que constitui a verdadeira obscenidade da miséria.