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A CADEIRA

 

Morreram milhares lá no centro. Vieram os tanques e passaram por cima dos corpos. Os que conseguiram fugir refugiaram-se na universidade e, mais tarde, um a um, foram identificados e a maioria presa. A memória futura é presente e o estudante transformou-se em ideólogo democrata. Em sapiente das teorias mais lúcidas sobre a liberdade e direitos humanos. Reuniu clandestinamente, ensinou jovens, aconselhou companheiros. Foi preso. Quando voltou a casa, a mesma estava remexida de alto a baixo, a sua mulher tinha os olhos inchados. Lágrimas de desespero, raiva, revolta e dor. O seu homem reanimou-a e as reuniões sucederam-se, as manifestações foram reprimidas, as tipografias encerradas e durante os jogos olímpicos o democrata regressou à prisão. Já não saiu. O mundo indignou-se. Sol de pouca dura. Chão que deu uvas. O outro mundo precisa das calças, camisas, automóveis e todos os géneros de produtos que enchem hipermercados. O prisioneiro voltou à baila. Anunciaram um Nobel para ele. Para ele, nunca. O seu Nobel são as grades. Entregou-se o prémio à cadeira vazia. Viva, à cadeia, perdão minhas senhoras e senhores, à cadeira!

 

João Eduardo Severino

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A caminho do dia 11 de Dezembro (10) - Continua a festa

por Daniel João Santos, em 14.12.10

Daqui a pouco, 14.30, mais um texto para o segundo aniversário do 2711. Hoje, um amigo do 2711, um exemplo e o dinamismo em pessoa, João Eduardo Severino do Pau para toda a Obra.

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Quando o Daniel Santos me endereçou o amável convite de escrever um post , no âmbito das comemorações do segundo aniversário deste simpático 2711, fui procurar outros acontecimentos relevantes que tivessem ocorrido no dia 11 de Dezembro de 2008.  Comecei por constatar que nesse dia reuniu o Conselho de Ministros, facto de tal modo irrelevante, que não merece ombrear com este grupo de bravos que se abalançaram na aventura da blogosfera. No entanto, este facto permitiu-me concluir que o 2711 nasceu numa quinta-feira, um  dia que, segundo os astros, augura  sucesso aos projectos que se iniciem sob a  protecção de Júpiter.  Googlando, lá fui descobrindo outros factos irrelevantes. Estava pronto a desistir, quando me lembrei de ir ver o que tinha escrito no Crónicas do Rochedo nesse dia.

Hélas!  Isto sim, foi notícia. Manoel de Oliveira celebrou, nessa data, o seu centésimo aniversário e eu escrevi um post de que destaco um excerto:

“Celebrar 100 anos é sempre motivo de admiração. Assinalá-los com pujança, vigor e uma mente lúcida onde ainda nascem projectos de futuro é um fenómeno!
Para além de uma vida cheia, onde não faltou a prática desportiva, o amor pelos automóveis e pela velocidade( chegou a entrar em corridas), Manoel Oliveira ainda teve tempo para ser um realizador profícuo, cuja obra ficará iniludivelmente gravada nas páginas da história do cinema. Mal amado em Portugal , mas constantemente elogiado pela crítica estrangeira, aplaudido de pé em Cannes, Berlim ou Veneza e alvo de indiferença ( quando não azeda crítica) caseira,
Manoel de Oliveira cumpriu o calvário de muitos génios portugueses, a quem a generosidade da alma lusa sempre regateou elogios”.

Ora é aqui mesmo que eu pretendo chegar. Como disse no início, o 2711 é um blog simpático, com gente muito cordata que recusa o protagonismo fácil e não se envolve em guerras blogueiras de alecrim e manjerona, para ganhar protagonismo. Mentiria se dissesse que o acompanho desde o nascimento mas, desde que o descobri, tornei-me visita assídua. Já várias vezes destaquei, no meu blog, a qualidade do 2711. Gosto de ler o que por aqui se escreve e a forma como se escreve. Registo também um aspecto que me parece ser inovador na blogosfera, que é o facto de ter colaboradores em dias fixos ( o Ferreira Pinto e a Cristina Mendes Ribeiro que há muitos anos acompanho). Este ano, passaram a fazer parte da equipa duas outras bloggers que há muito admiro – a Ana Lima e a Blonde. O 2711 está assim a cumprir o seu percurso. Desbravando novos caminhos, abrindo o seu espaço a outras opiniões.

Já por aqui li alguns posts onde os autores lamentavam a reduzida visibilidade que é dada ao 2711. Concordo em absoluto, compreendo algum desapontamento perante essa injustiça, mas permitam-me que estabeleça uma vez mais um paralelismo com Manoel de Oliveira. Fez o seu caminho sem cedências, certo de que estava a cumprir o seu percurso, indiferente às críticas de que foi alvo em Portugal.  Faço votos  que o 2711 continue, como até aqui, a seguir o seu percurso sem cedências, fiel aos seus princípios e ao seu estilo. Inovando, mas sem deixar de  proporcionar aos seus leitores este agradável prazer de visitar uma casa onde abunda a  simpatia e  a opinião, mesmo quando  corrosiva, é sempre leal.

Admito que o 2711 não chegue a comemorar o centenário, como o Manoel de Oliveira. Daqui a 98 anos os blogs devem estar completamente ultrapassados e a Internet será vista, pelos vossos bisnetos, com o mesmo desdém com que os vossos filhos olham para o gravador de cassetes, a televisão a preto e branco, ou o ferro de engomar a carvão. Por isso, além de parabenizar todos os que fazem o 2711, quero pedir-vos que enquanto estiverem por cá,  continuem com o vosso entusiasmo e a vossa persistência, a construir este espaço que enobrece a blogosfera.

Um grande abraço a todos.
Carlos Barbosa de Oliveira

 

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Continua a festa

por Daniel João Santos, em 13.12.10

No Sábado, dia 11, o 2711 fez dois anos de actividades. Hoje, visto que continuamos a receber textos em reposta aos convites da festa de aniversário, avança mais um autor. Pelas 14.30, das Crónicas do Rochedo, Carlos Barbosa de Oliveira.

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Um certo olhar

por 2711, em 12.12.10

Ia ser uma daquelas festas de garagem,

em que os slows se sucediam, ao som das músicas dos anos sessenta e setenta: Paul Simon & Art Garfunkel, Leonard Cohen, Cat Stevens...; era o aniversário do irmão mais velho, e nós, as quatro raparigas, mais novas,íamos, pela primeira vez, ser admitidas nesse mundo até então interdito. A ansiedade era muita, e grande a azáfama::
- " que vamos vestir ? ", uma pergunta mil vezes repetida entre nós, numa excitação que hoje nos faz sorrir. Foi uma estreia feliz, aquela que marcou a nossa " emancipação "; fôramos não só admitidas, como também aprovadas por unanimidade, pois que só assim posso entender que a partir desse dia esse mundo se tivesse aberto para nós.
Ontem fui, a outra festa, agora de um amigo blogosférico mais novo, com gente mais nova, mas lá consegui convencer o DJ de serviço a pôr uma dessas músicas de nostalgia. Sempre a olhar para o Manuel, que, mais uma vez, insistia em ouvir a " Grândola ". Botou-se discurso, de novo com vozes embargadas - afinal a tradição ainda é o que era, e a emoção era a mesma do ano  anterior -, cantou-se, dançou-se e desejámos longa vida ao aniversariante. Era madrugada já quando me despedi do Daniel e de todos os amigos com um " foi bonita a festa.".

 

Cristina Ribeiro - Colaboração para o 2711

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A caminho do dia 11 de Dezembro (8)

por 2711, em 10.12.10

2711 – Um blogue filho da puta

 

Recebi agora mesmo notícia de assobiar (de estalo queirosiano). Um tal de “combate de blogs” resolveu nomear um dos blogues onde participo [sem link] para blogue revelação do ano. Aparentemente, nada de anormal, dirão. Qualquer coisa ou qualquer realidade (até o obediente Nuno Almeida – às vezes Tito) é livre de nomear o que bem entender para o que bem lhe aprouver. Cliquei no link que a venturosa mensagem me anunciava e acabei por ir dar aqui (coisa grande, de pequeno ecrã). Aparentemente trata-se de um programa do braço noticioso da TVI (olha a ironia), aqueduto onde não boto olhos, que resolveu nomear o blogue onde participo [sem link] para blogue revelação do ano. Denúncias à parte, decidi olhar os nomeados para blogue e blogger do ano. And, surprise-surprise, there’s no surprise. Nada de novo. O mainstream luso-blogueiro impera. Se te dedicas à agricultura ou a sub-fenómenos de terciarização socioeconómica, não tens lá lugar. Há, obviamente, honrosas excepções a este meu discorrer: o 31 da Sarrafada e o Aspirina B, por exemplo – neste último caso, porém, sobrou aos nomeadores tomates para nomearem "o" óbvio Morgada de V. (ideia do Almeida para vontadear um amigalhaço), mas não lhes coube uma uvinha para chamarem o Valupi pelo nome.

Assim acontece (bem sei que o parêntesis foi comprido) com o blogue onde estas linhas são reproduzidas. Se não, vejamos. Os autores deste 2711 são não-seres, existências miúdas. Para além do exíguo Daniel Santos, a quem devo este convite, temos Ana Lima, Blondewithaphd, joshua, João António, manuel gouveia, Nuno Raimundo, Renato Seara e Rui Figueiredo. Tudo pés-rapados, arraia-miúda, populacho. Façam o que fizerem, nunca os veremos nomeados para o que quer que seja em termos de blogaria. Eu próprio, um pé-rapado-de-berço, por aí andaria (ó tristeza minha, que seria um carpir pré-eutanásico), a rapar o vazio tacho da não existência, não tivesse tido a raposia de, diz quem diz que sabe e asssevera quem partilhou e quem não partilhou mesa comigo (o me aproxima da génese de um partido e faz de mim pouco recomendável companhia) de me dedicar à dupla-espionagem, fazendo olhinhos ao poder e ao contra-poder. Isto, sem contar com a minha radiosa e nariguda beleza acidental, com a qual o pobre do Daniel não pode ombrear.

Em suma, participei no Aspirina B, no famigerado 5dias (o diabo que o carregue mais quem me convenceu, ele semi-ajoelhado, a nele participar) e na jugular. Participei, my bad, no Simplex. A bem ou a mal, lá me aceitaram em todos (claro que exagero – e aqui pauso as ironias –, que o Simplex e a jugular foram também obra minha e o excelente Valupi de hoje, nada tem a ver com o aspirina B de então). E por isso, apenas por isso, a minha aturada sombra é aturada (continuo a fiar-me em quem me recomenda). Claro que também já andei por uma espécie de 2711 de antanho – o afixe, que era aliás o meu nick (entretanto saí do armário) –, e como sou enxertado em corno de cabra, lá cheguei, eu e quem me acompanhava, a número 1 no blogómetro de então (o meu brasão e escudo são a careca, vista de cima, do Pacheco Pereira).

Mas esse não é o ponto. Não escrevo apenas para o Daniel, que por me ir conhecendo, já me percebeu e às minhas zombarias, ironias e remoques. Escrevo também para os leitores deste blogue, que não me conhecem o (mau) feitio. Cadê o 2711? Onde está o Palavrossavrus Rex? Nomeados para o raios que os parta, essa é que é essa (sendo certo que mais vale isso do que o destino que me calhou – nomeado pela TVI). Reduzidos ao lugar de onde dizem que que não passam (sois uns conas se acreditarem). Como algumas vezes já asseverei: indicam-vos o lugar dos blogues filhos-da-puta. Meros bastardos, que não terão nunca lugar no olimpo luso-blogueiro. E, azar dos azares, têm os olhos feios.

Ora termino. Enquanto estive no jugular dei e levei muita porrada desta malta a quem me dirijo e a cujo convite respondo. Aqui lhes lanço a farpa: nunca me vendi, nunca me avançaram com um lanço, não escrevi uma palavra em que, na altura (sublinho, com mágoa, o lugar-tempo), não acreditasse. Uns e outros exagerámos, sendo certo que muitas vezes os censurei (pois se eles tomavam a nuvem por juno).

Sou assim!, e se bem atentarem no espelho, ver-me-ão reflectido. E parabéns pelo aniversário, porra!, que é preciso ter pachorra para aturar esta merda toda. A mim, um dos nomeados da TVI (olaré!) – e também por isso –, já me vai faltando a tesão.

São quase cinco da manhã e amanhã, dia feriado (nem imagino a razão), é dia de trabalho. Por aqui me fico.

Rogério da Costa Pereira

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A caminho do dia 11 de Dezembro (8)

por Daniel João Santos, em 10.12.10

Está quase. Amanhã fazemos dois anos de actividades e muito bem. Daqui a pouco, lá pelas 14.30, avança mais um convidado. Num texto com todos os pontos nos ís, virgulas e pontos finais, o Rogério da Costa Pereira dá o nome aos bois.

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A caminho do dia 11 de Dezembro (7)

por 2711, em 09.12.10

A vontade dos povos muda

 

 

A Gallaecia foi uma província romana que compreendia boa parte do actual Norte de Portugal, da actual Galiza e Astúrias assim como as províncias de Leon e Zamora, tendo como capital Bracara Augusta (Braga).

 

 

 

Neste aniversário do “vinte e sete onze” fica bem recordar um pouco de história. Recordar que as fronteiras não são eternas e D. Afonso Henriques não foi o princípio de tudo nem o fim último.

 

Quando os povos começam a ficar fartos dos seus senhores instala-se um certo desconforto e um sentimento de mudança invade, paulatinamente, o seu subconsciente colectivo. Foi assim com boa parte dos habitantes da nossa Península Ibérica ao longo dos séculos.

 

Quem acredita na imutabilidade eterna das fronteiras ou na unidade de um povo só por este conviver no mesmo espaço ao longo dos últimos oito/nove séculos, esquece um simples pormenor: 900 anos são uma pequena gota de água nesse enorme oceano que é a história da Humanidade. São, provavelmente, os mesmos que em 1135 não acreditariam que as suas fronteiras estavam próximas de ser alteradas ou que em 1635 acreditavam que os Filipes seriam eternos ou que em 1971 julgavam que Portugal seria perpetuamente do Minho a Timor.

 

Tudo se resume numa simples palavra: Pão. Assim foi no passado, assim é no presente e assim será no futuro. A forma como, nas últimas décadas, o Povo do Norte foi e continua a ser tratado pelo todo, assim como os erros que cometeu pelo caminho, estão a ter como consequência um escassear do pão. Quando não há pão, todos ralham e ninguém tem razão, diz o ditado.

 

A história diz coisa diferente: quando não há pão sobra a revolta. Alguns julgam que estamos a exagerar. Outros começam a perceber os sinais. É tudo uma questão de lucidez ou falta dela.

 

 

 

 

Um forte abraço a todos os que, diariamente, fazem do 2711 um prazer de leitura para tantos que, como eu, por cá passam.


 

Fernando Moreira de Sá

Albergue Espanhol, AventarOs Cafeínicos

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A caminho do dia 11 de Dezembro (7)

por Daniel João Santos, em 09.12.10

Daqui a pouco, pelas 14.30. sai mais um texto inserido na festa de aniversário do 2711, dois anos a serem comemorados no próximo dia 11. Avança então o Fernando Moreira de Sá dos blogues Albergue Espanhol, AventarOs Cafeínicos.

 

Obrigado Fernando pela participação.

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A caminho do dia 11 de Dezembro (6)

por 2711, em 08.12.10

O relógio acusa a meia-noite …

Porque ressonas? Porque engordaste? Porque falas sem parar, incapaz de ver a minha súplica silenciosa para que te cales? Porque resolveste agora que tinhas de ser quezilenta com tudo e todos? Porque foi que, algures no silêncio da noite, dei comigo a pensar que se não fosse o caso de ser um cobarde me punha a andar sem sequer dizer água vai?

Não sei porque não adormeces, nem em que pensas quando de noite não dormes? Porque suspiras assim quando te viras dum lado para o outro? Estás doente e não queres dizer? Arranjaste outra? Tens problemas no trabalho e não queres que eu saiba, nem os miúdos?

Uma da manhã …

Eu sei que estás acordada. Nunca me enganaste mais esse teu olhar de sonsa. No fundo sempre foste fraca rês e eu um estafermo que me deixei iludir sabe-se lá com o quê que nem na cama alguma vez foste coisa de préstimo, valha-nos Deus!

Diz alguma coisa. Pareces sei lá o quê com esse olhar mortiço, um manso. És um inútil que arranjar a porta do armário da cozinha consegue, não sei mesmo onde estava com a cabeça quando me iludi com estafermo semelhante!

Duas da manhã …

Gorda, pareces uma baleia; imensa mas sem graça …

Parece um reco com aquela pança …

Amanhã, é amanhã. Levanto-me e vou-lhe dizer alto e bom som tudo o que penso dela e as suas manias. Sempre a armar em fina.

Não perdes pela demora. Eu seja cega se amanhã não te espeto com tudo. Vais ver, vais pagar os anos de sofrimento, o amor aos copos e à bola. Deixa estar …

O relógio avança e com ele o cansaço que os toma nos braços.

Sete da manhã. As notícias do costume. Levantam-se.

Ele, meio estremunhado, grunhe um bom dia. Ela diz bom dia.

Cada um segue para o seu quarto de banho. Ele escanhoa a barba, enquanto ela toma banho.

Estou mesmo velho e gordo, caramba!

Ó meu Deus que o raio da balança está avariada!

Que roupa visto? E esta ferida não cicatriza porquê? Estarei a morrer?

Tenho de tirar estes pêlos! Hum, que caroço é este? Estou doente?

Ó filha …

Querido, anda aqui depressa!

 

Ferreira Pinto

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