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A mesma bosta de sempre.

por manuel gouveia, em 13.03.09

Recebo o funcionário com um sorriso, procurando manter o contacto ocular, e promovendo uma empatia que me permitirá ser assertivo em todo o processo da entrevista de avaliação.

- Como está Nunes? – cumprimento-o estendendo-lhe a mão.
- Já nos cumprimentámos hoje. – respondeu-me meio surpreendido.
Coitado do Nunes! Ele não percebe que eu tenho de estabelecer com ele uma comunicação motivadora e orientada para a acção. Que tenho que o questionar para empatizar, criando nele uma receptividade para aceitar as minhas explicações, com o objectivo final de estabelecermos um compromisso. Num diálogo construtivo, consistente e flexível, sem descurar a gestão emocional do mesmo. Que devo começar por explorar os seus pontos de vista, colocando perguntas abertas, concentrando-me nas suas respostas, sem o interromper, reformulando no fim o que me acabou de dizer para confirmar-lhe que percebi a sua mensagem. E tudo isto mantendo o contacto visual.
 
- Ó pá estes salamaleques todos são para quê? – interrompe-me o Antunes - Este ano isto está diferente, vai haver promoções?
 
- Promoções? Quando estamos em crise? – deixo-me rir – Não. Este ano não é diferente, é a mesma bosta de sempre. Só que a DRH vai fazer um inquérito sobre a forma como decorreram as entrevistas e eu não quero cá chatices…

 

 

a formação

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11 comentários

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De Paulo Quintela a 13.03.2009 às 10:42

Bem apanhado. A liturgia da entrevista e a técnica sacra do 'acertivismo' e de como ludibriar controlos mecânicos burocratizados.
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De manuel gouveia a 13.03.2009 às 10:52

Falta-nos a verdade, o bom senso e alguma coragem. Um deixa andar por em nada acreditarmos.
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De PALAVROSSAVRVS REX a 13.03.2009 às 14:16

Coreografia e folclore, enquanto na prática se descuram as pessoas, tomando-as por parvas e onde está a assertividade poderia estar o insulto. «Como está, meu Camelo e Escravo do Fim da Era dos Empregos e dos Trabalhos?»

O desemprego está bem mais alto que 9%. Por décadas houve sempre trabalho e biscates que à Segurança Social disse nada. O desemprego quando chega, chega sem que estas pessoas figurem nas estatísticas e nos direitos. De modo que, provavelmente, estamos bem acima dos 15%.
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De António de Almeida a 13.03.2009 às 15:01

Talvez não, porque algum subemprego também está contabilizado como desemprego, e não devia, entre o deve e o haver os números provavelmente até batem certo, mas o Estado nem sonha o que existe em economia paralela.
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De manuel gouveia a 13.03.2009 às 15:07

Num grupo folcolórico tenta aprender os passos...
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De alf a 13.03.2009 às 19:04

Fabuloso! Delirante! Bem observado e melhor escrito.

(você acha os meus comentários curtos mas que posso eu fazer senão tirar o chapéu e deixar cair o queixo?)
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De manuel gouveia a 13.03.2009 às 19:30

Este comentário até que lhe saiu bem! Um abraço.
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De Daniel João Santos a 13.03.2009 às 19:34

Formação e avaliação,acho muito bem para alguns membros abastados da nossa sociedade
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De manuel gouveia a 13.03.2009 às 22:23

Mas, Daniel tu no sector privado não és avaliado? Como sobrevive a tua empresa se tu não trabalhas por objectivos, se não tens as tuas competências funcionais e especificas avaliadas? Como?

Ou a avaliação é apenas para o sector público e empresarial do estado?
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De anonimodenome a 14.03.2009 às 08:26

Pois se essa entrevista anual é o meu único contacto ANUAL com a chefia?
Tudo na mesma não é?
Eles gostam que eu não faça nada.
Aposto que tiveste a escrita facilitada em todo o parágrafo que parece a translineação do manual dos RH ("comunicação motivadora e orientada para a acção" e seguintes...)
Como bem dizes "a mesma bosta de sempre".
O post está excelente.
Um abraço.
Posta sempre.
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De manuel gouveia a 14.03.2009 às 16:25

Envio-te o manual, eu ia deita-lo fora quando o comecei a ler... imaginei-me a aplica-lo numa entrevista...

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