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No Kikuxi #1

por Renato Seara, em 24.11.12

A 5 de Novembro de 2012, após sete intermináveis horas de voo, o comandante do voo da TAAG,  que ligou o Porto a Luanda, anunciava (finalmente) que acabávamos de aterrar no aeroporto 4 de Fevereiro. As minhas pernas nesse exato momento "pularam" de alegria. A minha tradicional dor de ouvidos, que tornam agoniantes os últimos trinta minutos de cada vôo, também acabara ali.  A cabeça essa, estava já a milhares de quilómetros. Naquele instante havia iniciado a contagem decrescente para o reencontro com as pessoas de que dolorosamente me separara fisicamente.  

 

Assim que se aterra em Angola, sabe-se de antemão que existe uma primeira "barreira" a ultrapassar, a qual consiste na famosa apetência dos agentes alfandegários para pedinchar por uma "gasosa". A descontracção com que aparentemente "enfrentei" os dois agentes, que me revistaram da ponta dos cabelos à ponta do pés, foi exactamente isso, uma aparência. Tremi desde o primeiro momento em que pisei naquele aeroporto até ao momento em visualizei uma placa, firmemente levantada, com o meu nome. O meu salvo conduto para sair dali. 

 

Luanda à primeira vista é um caos urbanístico, à segunda vista o caos é ainda mais impressionante, à terceira, quarta e quinta a perspectiva vai sempre piorando. O trânsito de Luanda, é indescritível através das palavras, devendo sim, ser vivido na primeira pessoa. Não há regras, sinais, ou um qualquer sentido de "responsabilidade" por parte quer de condutores, quer de motociclistas e muito menos dos peões. É um salve-se quem puder, ultrapassa-se por onde der. O serviço de táxi é disponibilizado pelos "candongueiros". Os candongueiros  não passam de umas "carripanas" de nove lugares invariavelmente ocupadas por mais de uma dúzia de passageiros, a quem são cobrados cerca de 100 Kwanzas (aproximadamente 1USD ou 0.80€) por viagem.

 

Não dissociei o primeiro impacto que Luanda me causou, das consequências que levaram ao aparecimento de todo o caos urbanístico existente. Assim, com excepção do tráfego pior que o imaginado, nada do que tenha visto me tenha "chocado". Esperava Luanda exactamente assim. Os bairros de lata que circundam o centro da cidade refletem anos de movimento migratório do povo angolano das províncias para as imediações de Luanda, devido aos conflitos armados que quase ininterruptamente e durante quarenta anos, fustigaram o país, primeiro a "guerra de libertação", entre 1961 e 1974 com o cinzento Portugal salazarista, e após a  independência alcançada em 1975, a guerra civil que apenas terminou definitivamente em 2002 com a morte do líder rebelde Jonas Savimbi.

 

Luanda, com excepção da (bem conseguida) zona da nova marginal, inaugurada dias antes das Presidenciais de 2012 que resultaram na reeleição de José Eduardo dos Santos, reflete pois na perfeição, o caos que cerca de quarenta anos de conflitos armados podem provocar, urbanisticamente e socialmente num país onde aparentemente não falta nada (matérias primas) e onde ao mesmo tempo falta tudo.

 

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4 comentários

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De Cristina Torrão a 24.11.2012 às 17:43

Muito interessante, gostei de ler :)
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De Daniel João Santos a 24.11.2012 às 18:55

excelente Renato. Um bom regresso às lides. Boa ideia estes textos.
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De André Miguel a 25.11.2012 às 19:02

Interessante e muito correcta descrição.
No entanto não posso deixar de referir que Luanda, apesar de todo o caos que descreve, está muito melhor que a 1ª vez que aqui aterrei em 2007. A começar pelo Aeroporto, que não tem comparação possível, às ruas mais arranjadas e limpas.
Seja bem vindo e, apesar de tudo, desfrute! Luanda não se explica, vive-se.
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De manuel gouveia a 25.11.2012 às 21:09

A nova metrópole do império português...

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