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'Morte ao Sales Luís'

por anonimodenome, em 20.09.12

No antigamente do velho regime Marcelista havia personagens que os tinham no sítio e que apesar de muito odiadas não fugiram às responsabilidades.

 

No dia 26 de Abril de 1974, o seguinte à revolução, fui às aulas no IST e encontro um bando de alunos a vociferar, em frente à porta fechada do gabinete do conselho de direção, o slogan mais grafitado nas paredes do Técnico: ‘Morte ao Sales Luís’.

 

Este ódio de morte era justificado porque havia 3 carrinhas cheias de polícias de choque, e com cães,  que estavam em permanência no recinto mais as câmaras de filmar nos telhados para marcar os cabecilhas, mais os gorilas-contínuos da PIDE/DGS, mais as bordoadas sofridas pelos alunos a seguir às RGAs (reunião geral de alunos) unidos na vontade de não ir à tropa para não perder 2 ou 4 anos de vida ou a vida toda de uma assentada.  

 

Sem me dar conta fui sendo empurrado até à porta que se abriu mesmo à minha frente. Entrámos ordeiramente e vociferando ‘Morte ao Sales Luís’ fomo-nos encostando às paredes até que enchemos a sala. Alguns, mais entusiasmados, até subiram para cima da longa mesa em U à volta da qual se sentavam os professores do conselho diretivo, com o Sales Luís no topo.

 

Consciente de que não tinha mais nada a fazer naquela sala, já depois das despedidas e agradecimentos que sem dúvida terá dedicado aos seus colegas, o distinto goês passa, sereno e de olhar levantado, bem rente à fila de alunos que brandiam os punhos sobre a sua cabeça ao mesmo tempo que lhe enchiam os ouvidos com as ameaças de ‘Morte ao Sales Luís’.

 

Já na rua fora do Técnico um aluno muito corajoso deu-lhe um pontapé no cú. Estava a aprender a destacar-se na cena política.

 

Ele podia ter ficado em casa, ou fugido para Espanha mas, mesmo cheio de medo, ele preferiu ir lá e arrostar com as consequências. Ele passou por ser fascista mas agora apenas me parece ter sido um professor/diretor, de princípios, metido num ambiente adverso que nem ele nem os alunos escolheram.

 

E onde andam os estudantes de hoje? nada de panfletos, RGAs, manifs, greves, nada ... é cada um por si. Já interiorizaram que a deportação/emigração é o melhor que lhes pode acontecer.

Portugal fica mais pobre por exportar bocados de futuro e eles não vão ajudar a mudar Portugal.  Que raiva eles devem ter de nós por termos deixado isto chegar ao ponto em que estamos.

 

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13 comentários

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De CeC a 20.09.2012 às 08:17

Obrigado pelo texto, Anónimodenome, gostei muito de o ler.
Fiquei foi a ponderar sobre o dogma precoce que as 'revoluções estudantis' acabam por transmitir. Não se trata apenas da questão ideológica, que já por si tem o peso que tem, mas sim das soluções - ou falta delas - no após.
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De Ana Lima a 20.09.2012 às 15:32

Olá e bem vindo!
Não tenho tempo de comentar como queria. Só para dizer que gostei do que escreveu.
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De manuel gouveia a 20.09.2012 às 17:46

50 anos de ditadura ensinaram-lhe a lutar pelos seus direitos, 38 de democracia transformou-os em ratos...
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De anonimodenome a 20.09.2012 às 18:56

Obrigado a todos pela receção. Sensibilizado.
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De João António a 20.09.2012 às 19:02

Bem vindo.
Boa questão colocada no post .
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De Cristina Torrão a 20.09.2012 às 19:32

Bem vindo! Mas, ou me engano, ou já escreveu um post? ;)

Gostei do texto e foca um aspeto interessante: o de todos aqueles que se viram num "ambiente adverso" sem bem saberem porquê. É uma questão mal estudada e que originou muitos insultos de "fascista" injustos.
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De Daniel João Santos a 20.09.2012 às 21:36

os de hoje andam pedidos nos Ipad e afins, pouco interessados em saber quem é Passos Coelho.
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De edgar a 20.09.2012 às 22:57

Moral da história?
Um fascista corajoso deixa de ser fascista? Quem chamou e/ou pactuou com a pide, a polícia de choque e os "gorilas" nas universidades, só pode ter sido "um director de princípios" fascistas. A história das universidades portuguesas, durante o fascismo, está cheia de exemplos de dignidade e coragem de professores e alunos que não se vergaram à ditadura.
Só um profundo desconhecimento das lutas dos estudantes e da juventude nos últimos anos pode permitir que se pergunte "onde andam os estudantes de hoje".
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De anonimodenome a 21.09.2012 às 00:23

Não é por ser corajoso que se é ou não fascista. A atitude que faz pensar é que ele foi para o seu local de trabalho e já sabia o que o esperava. Se ele tivesse a consciência pesada não tinha ido não acha? No post 'Eles já têm medo' http://em2711.blogs.sapo.pt/1846497.html nota-se a diferença de carácter.

A PIDE e o ministério mandavam, ele já não era novo e arriscava a perder a própria futura pensão de aposentação se assumisse qualquer rebeldia e também não iria arranjar trabalho noutro lado. Ele fora professor a vida toda e não podia arrastar a sobrevivência de toda a família numa decisão pessoal. Só se é herói quando se pode, de outro modo vai-se negociando a liberdade possível.

Quanto aos estudantes de hoje não tenho notícias o que para mim já diz muito.
Mas fique descansado que não será por mim que o em2711 vira à direita.
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De edgar a 21.09.2012 às 02:33

Não pretendi ofendê-lo, nem sequer censuro os que não lutaram contra o fascismo, mas não concordo que se desresponsabilize quem colaborou na repressão aos estudantes com a Pide, os "gorilas" e a polícia de choque.
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De alf a 25.09.2012 às 12:28

O Sales Luís foi um grande homem, em múltiplos aspectos; injustiçado como muitos outros no processo revolucionário - os oportunistas crescem sempre à custa dos outros. Não é culpa do processo revolucionário, é culpa dos oportunistas e da ingenuidade dos que por eles se deixam conduzir - no fundo, é culpa da ingenuidade dos que não são oportunistas. Nessa altura tal como agora, pois andamos todos a ser ingénuos com as intenções das troikas e quejandos... só que desta vez não adianta "assobiar para o lado", como muitos fizeram nessa altura, porque ninguém se safa se não lutarmos todos
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De José Nóbrega Ascenso a 14.11.2016 às 17:23

Apenas uma ligeira correção: o Prof. Doutor Engº. Sales Luís, Diretor do IST - Instituto Superior Técnico em 1974, não era goês. Era um dos mais ilustres timorenses, natural de Lahane, Díli, Timor Leste. O Prof. Doutor Eng.º Sales Luís era bisneto (filho de uma neta) do grande Governador de Timor, o mais longevo, que foi o General José Celestino da Silva, o introdutor da cultura do café em Timor e fundador, com a sua família, da SAPT - Sociedade Agrícola Pátria e Trabalho.

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