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Eu, que costumo publicar aqui histórias de animais, não podia deixar de escrever sobre isto. Embora insista na harmonia entre humanos e animais, de como podemos aprender com eles, de como se podem estabelecer grandes amizades, etc., mostro, apenas, que situações dessas são possíveis e tento contribuir para que sejam cada vez mais possíveis.
Os cães não são computadores que se programam como bem entendemos, não têm um botão de ligar e desligar. São seres vivos, com vontade própria e, embora inteligentes, agem muito mais por instinto do que nós, que aprendemos a controlá-los (uns mais do que outros). Porém, pela sua aptidão natural de se submeter a um líder, de precisar de alguém que o oriente, o cão presta-se, mais do que qualquer outro animal, a interagir connosco. Mas é um grande erro pensar que eles são como nós, que agem como nós e que aprendem o mesmo que nós. É um grande erro pensar que os podemos humanizar. Um cão é um cão e uma pessoa é uma pessoa.
Neste caso, eu apenas pergunto: o que raio estavam a fazer dois Dogues Argentinos num terraço de apartamento, no centro de uma grande cidade? Infelizmente, há gente que usa os cães (como usam os carros) para mostrar grandeza e importância, para meter medo e intimidar, gente que pensa que cães pequenos não são cães a sério (será que também pensam que pessoas pequenas não são pessoas a sério?). Eu não sei se existem raças potencialmente perigosas, aliás, nem os especialistas chegaram ainda a uma conclusão sobre isso. O que sei é que os cães, em relação ao seu peso, têm muito mais força do que um ser humano. A minha Lucy pesa apenas sete quilos e, se lhe apetecer ir para a direita, enquanto eu quero ir para a esquerda, tenho de usar de muita força na trela para a arrastar. Nenhum ser humano – repito: nenhum – está em condições de medir forças com um cão de grande porte, como um Dogue Argentino.
Ter cão não é apenas tê-lo, é preciso educá-lo, aprender a conhecê-lo. É preciso estabelecer uma relação de grande confiança com ele, uma relação em que cão e pessoa se olhem nos olhos e se entendam, sem palavras, nem outros gestos (a propósito, é preciso ter muita confiança num cão para o olhar nos olhos, nunca tentem fazer isso com um cão que não conhecem, mesmo que sejam um Rambo). E, acima de tudo, é preciso deixar-lhe claro quem é o líder. Tudo isto requer tempo – muito tempo – e dedicação e nem toda a gente está disposta a isso, ou tem essa possibilidade. E, normalmente, o facto de existirem dois cães numa casa quer precisamente dizer que as pessoas não dispõem do tempo suficiente para tratar de um e arranjam-lhe um/a companheiro/a, para que não se sinta sozinho. Normalmente, dá para o torto. Um cão, em vez de dois, não tira trabalho. Dá, sim, trabalho a dobrar!
Nenhum cão gosta, por natureza, de crianças, é preciso adaptá-los a elas, de preferência, desde o início. Os cães costumam reagir com agressividade aos gritos e aos gestos bruscos das crianças, a não ser, como digo, que sejam criados com elas. É preciso, principalmente, muito cuidado com crianças menores de quatro anos, não só pelo seu tamanho e impotência, mas pelo facto de elas, igualmente, ainda não controlarem os seus instintos. É certo que há cães mais agressivos que outros, cães mais pacientes do que outros, cães mais medrosos do que outros (um cão medroso é sempre um cão agressivo) como há pessoas mais agressivas, mais pacientes e mais medrosas do que outras. Mas não se sabe se essas características dependem da raça.
Não posso ajuizar sobre as razões que levaram a esta tragédia. Mas há um bebé morto, há duas famílias desfeitas e há uma criança que nunca superará o trauma de ter visto a irmã pequenina ser morta por um cão. E há um cão que será abatido. Os únicos responsáveis são os donos do cão, que estarão desfeitos, a esta hora. Mas não deixam de ser os responsáveis.
Tudo isto me deixa triste. Muito triste.