Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Portugal, a Flor e a Foice

por Cristina Torrão, em 30.09.15

Portugal - a Flor e a Foice.jpg

«Infelizmente, o mito imperial estava nos livros, ilustrado com as caras barbudas e façanhudas de todos os descobridores, de todos os heróis. E tão arreigado que, ao contrário do que se pode pensar, desde o início até ao fim das hostilidades, a generalidade do povo português não foi contra a guerra: foi a favor, iludida pela propaganda, pela própria ignorância, traumatizada pelo receio de que, uma vez perdidas as colónias, ainda ficaria mais pobre. O pré-mensal que os soldados recebiam, uns dez mil escudos, e que em parte remetiam às famílias, parecia-lhes um passo largo a caminho da abundância. Por isso nas igrejas se rezava e se pedia o que só aos santos se pode pedir, o impossível, a saber: que a guerra continuasse e que os filhos não morressem nem fossem feridos».

(Página 97)

 

Lúcido. Provocador. Divertido. Imprescindível.

Evito usar adjetivos em excesso, mas, neste caso, são estas as quatro palavras que me ocorrem para caracterizar este livro.

 

É lúcido como só um livro escrito por alguém que mora no estrangeiro pode ser. Só com a distância devida se consegue olhar com tanta objetividade para os seus compatriotas e o seu país, desprovido de "rodriguinhos". Portugal – A Flor e a Foice foi escrito em 1975, publicado, na altura, apenas na Holanda, país onde vive José Rentes de Carvalho. A versão portuguesa demorou quase quarenta anos a surgir: em 2014, por ocasião do 40º aniversário da Revolução! Incompreensível.

 

É provocador e, por vezes, exagerado. Mas é um exagero perfeitamente justificado, aquele tipo de exagero que nos ajuda a abrir os olhos. Calculo, porém, que a crueza e a objetividade do escritor dificultem a leitura a muitos portugueses. A mim, não. Adorei! Por igualmente viver no estrangeiro e ter aprendido a olhar para o meu país sem as lentes afetivas que distorcem a realidade?

 

É divertido, raramente me diverti tanto a ler um livro. Podem chamar-lhe humor negro. Eu prefiro chamar-lhe ironia fina.

 

É imprescindível. Todos os portugueses deviam ler esta obra, por muito que lhes custasse. Seria uma espécie de lavagem interior, um banho de lucidez. Vêm-me à memória palavras do Ega, essa fascinante personagem de Eça, n' Os Maias: «Sinto-me como se a alma me tivesse caído a uma latrina! Preciso de um banho por dentro!»

 

Pois leiam este livro e purifiquem a vossa alma!

 

E aqui vai mais um cheirinho delicioso:

 

«Para eles [escritores] o povo era folclórico, estúpido, pobre por culpa da sua própria ignorância. Quando se lêem os romances em que, supostamente, o povo está presente, constata-se na generalidade este fenómeno curioso: aquele povo não existe, é a imagem deformada obtida pelos escritores que vão à província ver os camponeses como os curiosos vão a um jardim zoológico ver os animais. A prova: na maioria, na grande maioria dos romances portugueses, os personagens populares são postos a falar com empolamento académico, ou então com a ênfase pesada dos maus dramas de teatro. Mais: aquela linguagem não é a sua, autêntica e rude. Nada disso. É uma linguagem que o escritor inventa, pedante, a mentir nos sentimentos e na sintaxe. A ponto que com os romances portugueses sucede o seguinte: não parecem ter sido escritos para serem lidos, ou com a intenção profunda de, ao agitar um problema da sociedade, causarem uma mudança, ou corrigirem uma injustiça, mas simplesmente para que o autor possa dar entrada naquele grupo de eleitos que se julga diferente, e daí melhor».

(Página 134)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

O Rei do Monte Brasil

por Cristina Torrão, em 01.09.15

O Rei do Monte Brasil.jpg

 

Através do régulo Gungunhana, detentor do vastíssimo império de Gaza, no atual território de Moçambique, entramos em contacto com a cultura africana que resistia à colonização, uma cultura que se nos afigura cruel e sanguinária. Porém, o domínio branco esteve longe de apaziguar tais costumes, ou de dar um exemplo de civilidade, pois também ele se revelou na violência gratuita, com doses insuportáveis de arrogância, gerando a colossal revolta que se conhece.

 

O romance de Ana Cristina Silva dá-nos a perspetiva africana, pela voz de Gungunhana, mas também da portuguesa colonizadora, através do oficial de cavalaria Mouzinho de Albuquerque, o captor do régulo. Gungunhana acaba por ser trazido para Lisboa como um troféu. Ele, sete das suas mulheres e mais alguns parentes, incluindo um filho, são exibidos como animais de zoo à ignorante sociedade portuguesa de finais do século XIX. Segue-se o exílio nos Açores.

 

Mouzinho de Albuquerque consegue subjugar as tribos à administração colonial portuguesa e é aclamado pela imprensa como um herói da pátria, mas, nos corredores do Paço, criticam-se os seus métodos, ao mesmo tempo que o governo se revela indiferente em relação aos seus planos para África. Sentindo-se incompreendido e inútil, a que se junta uma paixão secreta pela rainha D. Amélia, Mouzinho de Albuquerque acaba por se suicidar.

 

A notícia da sua morte é recebida com algum regozijo por Gungunhana, no seu exílio no Monte Brasil, uma floresta da ilha Terceira onde ele se refugia e se entretém a caçar coelhos, por ser um local que lhe lembra a sua terra-natal. O antigo régulo nunca mais pisará terras africanas, morrendo amargurado.

 

As reflexões perante a evidência da morte, tanto do régulo africano, como do seu captor, ao planear o suicídio, são o ponto de partida para este romance escrito a duas vozes. A autora apresenta-nos as duas versões sem tomar partido nem deixar transparecer um julgamento ou uma opinião que seja, o que muito apreciei. Põe igualmente em evidência a amargura do fim, qualquer fim, mesmo o daqueles que, em algum momento da sua vida, conheceram a glória.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Lessons from a Sheep Dog

por Cristina Torrão, em 18.08.15

Lessons from a Sheep Dog.jpg

 

Cheguei a este pequeno livro por acaso. Foi-me oferecido pelo meu marido, por sua vez, atraído pelo título e pela capa. Sobre o autor, Phillip Keller, não encontrei muito na internet, a não ser que nasceu no Quénia, em 1920, filho de missionários (brancos), e que escreveu vários pequenos livros sobre a religião cristã, nomeadamente, sobre o encontro com Deus na Natureza, tendo, por base, a sua profissão de pastor. Também foi fotógrafo do mundo animal.

 

Neste pequeno livro, e não obstante as, por vezes, fastidiosas lições sobre a Bíblia, nota-se o enorme respeito que Phillip Keller votava à Criação Divina. Através da sua relação com a cadela pastora Lass, uma Border Collie, o autor faz um paralelo com a relação entre Deus e os humanos.

 

O livro cativou-me pela sua ternura. Phillip Keller, com vinte e poucos anos, acabava de se mudar de África para uma região inóspita do Canadá, na costa oeste, e adquirira um rebanho. Na sua procura por um bom cão pastor, deu com uma Border Collie mal tratada, num exíguo pátio de traseiras, na cidade mais próxima. A cadela, com cerca de dois anos, era mantida acorrentada por os seus donos não saberem lidar com a sua energia. Quando a soltavam, ela corria e atirava-se a tudo o que se movesse, incluindo crianças de bicicleta.

 

Embora Lass o recebesse agressiva, Phillip Keller ficou com ela, mais por piedade do que por convencimento de que o animal lhe pudesse ser útil. E quase se arrependeu. Lass estava tão traumatizada, desconfiava tanto de humanos, que parecia impossível fazer algo dela. Manteve-a igualmente presa, durante algum tempo, para que ela não fugisse, mas Lass recusava-se a comer. Quando começou a ficar perigosamente magra, o dono soltou-a… E ela desapareceu na floresta adjacente.

 

Phillip procurou-a durante dias, perguntou nas quintas das redondezas… Em vão. Até que a viu no cimo de um rochedo, observando-o com as suas ovelhas. Levou-lhe comida, mas ela logo tornou a fugir. Phillip deixou a tijela da comida em cima do rochedo e constatou, na manhã seguinte, que estava vazia. Na sua sensibilidade, compreendeu que nada deveria forçar: ou Lass vinha ter com ele de forma voluntária, ou nada feito. Todos os dias ia deixar comida ao rochedo e todas as manhãs dava com a tijela vazia. Até que um dia, estando a observar o pôr-do-sol no mar, no cimo de uma escarpa, com as ovelhas à sua volta, sentiu um narizito canino, muito tímido, a tocar nas suas mãos, atrás das costas. Phillip Keller designa esse momento como um dos mais bonitos da sua vida. E eu classifico essa cena como uma das mais comoventes que já li! Pela paciência revelada pelo humano e pelo ganhar de confiança de uma criatura traumatizada.

 

Phillip e Lass tornaram-se grandes amigos, revelando-se a cadela indispensável para o sucesso da quinta. Além de guardar e defender o rebanho de animais selvagens, Lass era exímia em reunir as ovelhas, que se espalhavam, ou se perdiam, nas redondezas, aprendendo a interpretar todos os comandos e sinais que o dono lhe transmitia.

 

Claro que adorei esta linda história de amizade. Para o próprio autor, o mais importante foi, nas suas palavras, «o que Deus lhe ensinou através do trabalho com esse animal maravilhoso». O paralelo que ele estabelece com a relação entre Deus e os humanos, e que não é de desprezar, está bem patente nesta passagem:

 

«Deus depara connosco, muitas vezes, como eu deparei com Lass: no local errado, presos em fanatismo e teimosia, caídos em mãos erradas e mal tratados por um amo sem coração.

Esta importante verdade espiritual foi-me revelada naquela tarde, em que fui buscar a Lass, enquanto a dona não parava de reclamar sobre o comportamento mentecapto da sua Collie. Ela não fazia ideia do que um animal tão maravilhoso precisava, a fim de revelar as qualidades que lhe permitiam desempenhar uma atividade específica. Nada sabia, nem estava interessada em saber, sobre o desperdício de tão grande potencial daquela criatura de Deus.

A cadela, presa pela corrente e encolhida no pó, tornou-se, para mim, na imagem do destino de tantos homens e mulheres, que estarão dotados de qualidades específicas, mas que se encontram nas mãos erradas. Pessoas presas no desespero dos anos e das oportunidades perdidos».

 

Mesmo os leitores que abominam qualquer religiosidade hão de ver a beleza de sentimentos incluída nestas palavras…

 

Nota: li o livro em alemão, com o título Was mein Hirtenhund mich lehrte, sendo a tradução de minha autoria. A versão inglesa pode ser adquirida na Amazon.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Sultão - o Burreco que veio de Miranda

por Cristina Torrão, em 21.07.15

Sultão, o burreco que veio de Miranda.jpg

Pardinho, Pernas, Orelhas, Ruço, Sultão – cinco nomes para o mesmo burro, conforme os seus donos, adaptando-se às funções que desempenha: animal de carga, meio de locomoção para o pastor com deficiência nas pernas, companheiro de brincadeiras, consolo na solidão, burro de passeio, ou mesmo animal com capacidades terapêuticas para doenças da alma e do corpo. Também poderiam ser diferentes burrecos, subestimados ao longo dos tempos, mas sempre fiéis aos humanos, seja quais forem as condições de vida. Até para um Contador de Histórias, que pretende «promover e desenvolver o gosto pela leitura», o burro é imprescindível, nas incursões pelo Planalto Mirandês, desta vez, com o nome de Atenor, tendo livros como carga nos seus alforges.


Isabel Maria Fidalgo Mateus presenteia-nos com mais uma excelente novela, na qual retrata a vida transmontana como ninguém, de um passado recente até à atualidade, vida impossível de imaginar sem a ajuda e a companhia de animais, dando a estes a dignidade que tantas vezes faltou e continua a faltar.

A modificação nas condições de vida conduziu à procura de novas funções que justificassem a existência destes animais e garantissem o seu bem-estar e é nesta linha que se desenvolve o trabalho da AEPGA – Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino. 

O lançamento de Sultão – o Burreco que veio de Miranda, com ilustrações de Cristina Borges Rocha, foi incluído no programa do festival itinerante L Burro I L Gueiteiro (O Burro e o Gaiteiro, em mirandês), organizado pela AEPGA. No próximo sábado, 25 de Julho, o festival assentará arraiais na Aldeia de Vila Chã da Braciosa, perto de Miranda do Douro. Com diversas atividades, que incluem passeio, piquenique e várias oficinas (consultar programa aqui), terá lugar, às 18h 30m, o lançamento e leitura encenada por Bruno Lopes de alguns textos do Sultão.

Aproveito para dizer que todo o programa do festival itinerante L Burro I L Gueiteiro é ideal para uns dias de férias diferentes. Terá lugar de 22 a 26 de Julho e surge como um esforço de revitalizar e valorizar dois elementos chave da cultura mirandesa: o Burro de Miranda e o tocador de Gaita-de-Fole, em cinco dias de itinerância pelas aldeias da região, levando burros, gaiteiros, teatro, dança e música ao encontro das populações locais. Usando as palavras dos organizadores, trata-se de um evento a pensar em todos, miúdos e graúdos. A AEPGA também tem página no Facebook.
 

Festival Itinerante Mirandês.jpg

Para mais informações sobre a escritora Isabel Maria Fidalgo Mateus, de quem já tinha falado a propósito do seu lindíssimo livro Farrusco – Um Cão de Gado Transmontano, e que tem um dos seus livros, O Trigo dos Pardais, incluído no Plano Nacional de Leitura, visitem o seu site - http://www.isabelmateus.com/main.php, ou o seu mural no Facebook.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Adubos, soporíferos e ressurreições

por Eduardo Louro, em 03.07.15

 

Miguel Relvas ressuscitou. Estamos de resto a atravessar um extraordinário período de Páscoa… Com a aproximação das eleições, e com o terreno bem adubado pelo efeito grego, o campo do governo tornou-se num espaço de alta fertilidade. De repente, o governo passou da Idade Média para o Renascimento. Mas sem nunca largar o obscurantismo!

Estas coisas agora fazem-se com livros. Até Relvas – “vai estudar malandro”, veja-se a ironia – ressuscita num livro. E à volta do livro – como se da gruta tumular se tratasse – reúnem-se as várias testemunhas da ressurreição, que hão-de partir mundo fora a anunciar a boa nova. Na circunstância: Relvas voltou. Está vivo e anda por aí!

O apóstolo principal não era Pedro. Nem Simão, nem Tomé. Chama-se José Manuel: José Manuel Durão Barroso, como se sabe um dos grandes responsáveis pelo inferno em que estamos metidos, mas que anda por aí como se nada tenha nada a ver com isso. Que não teve pejo em, também ele, meter as mãos – sujas, sujas até ao pescoço – no saco do adubo grego para alarvemente alimentar a revegetação do seco e árido campo do governo

E vai daí, o ex-presidente da Comissão Europeia, sem se perceber o que é que o cu tem a ver com as calças - que é como quem diz: o que o livro tem a ver com a coisa? - desata a aconselhar os portugueses a olharem para a Grécia, e a concluir que Portugal só não está na mesma situação graças à determinação do governo e de Pedro Passos Coelho. Ainda se fosse graças a Miguel Relvas… Ou ao "O outro lado da governação"…

Coitados dos gregos. Servem a esta gente para tudo. Até para que ninguém fale dos escândalos das privatizações que o Tribunal de Contas denunciou no início da semana. Até parece que não se passou nada… Até parece que em qualquer país a sério, um governo que tivesse sido acusado do que este foi, não estava já no olho da rua!

Ah! Afinal o efeito grego é mais soporífero que adubo...

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

 

Espera, há de passar-se alguma coisa!

Assim traduzi Warte nur, es passiert schon was, o título de um livro de contos (os contos, no seu regresso triunfal), agora publicado na Alemanha, do autor e jornalista grego Christos Ikonomou. E de que tratam estes contos? Da atual crise grega. As personagens deixaram de ser donas da sua vida, porque os seus destinos pouco contam na política dos burocratas de Bruxelas, obcecados por números. Como Takis, por exemplo, que perdeu a mulher há pouco tempo e não consegue sustentar sozinho os dois filhos, apesar de ter dois empregos; ou um casal, que já não consegue pagar a renda de casa e será, em breve despejado - enquanto o homem se limita a embebedar-se, enfiado na cama, a mulher, cansada, põe-se em divagações sobre o fracasso das revoluções; ou os reformados, que se encontram numa longa fila de espera, em frente de um consultório médico, e começam a discutir uns com os outros sobre coisas sem importância, na sua necessidade de descarregar as suas frustrações.

Trata-se de gente sem esperança, gente que se sente traída, depois de uma vida de trabalho e de sacrifícios.

Christos Ikonomou ganhou, em 2011, um prémio literário na Grécia. Os alemães acharam o seu livro digno de ser traduzido e publicado no seu país, cujos cidadãos não fazem ideia do que se passa na Grécia, em Portugal e na Espanha. Quem comprar este livro, ficará mais informado.

 

E sobre o que escrevem os autores portugueses?

Autoria e outros dados (tags, etc)

Um livro por mês (10)

por Cristina Torrão, em 01.11.13

 

 

Perante atrocidades, muita gente se pergunta: como é possível que haja pessoas capazes de fazer tal aos seus semelhantes? Podemos apelidá-los de humanos?
E eu pergunto: quantos de nós estariam dispostos a cometer atrocidades, se tais atos fossem aceites e legitimados pela lei e ainda nos pagassem (e bem) para fazermos isso?

Muitos mais do que imaginamos!

Às vezes, penso que anda muito instinto sádico recalcado, por aí, à espera de uma oportunidade para se soltar. Por mais que nos horrorizemos, os crimes nazis (e isto, só para dar um exemplo) foram exercidos por humanos, por gente igual àquela com que nos cruzamos nas ruas, todos os dias. Assim como (a uma menor escala, mas não menos trágico para as vítimas) os pides eram pais de família, que circulavam pelas ruas, iam a festas e restaurantes, o que a maioria continuou a fazer, passada a euforia revolucionária e um pequeno período de cadeia.

O livro da jornalista Joana Pereira Bastos, além da descrição dos horrores por que passaram os presos de Caxias e Peniche, tem o mérito de nos mostrar que o calvário não acabou com a sua libertação. Gostamos de pensar que sim. Houve a revolução e eles puderam, enfim, sair em liberdade. Um final feliz, de conto de fadas: casaram e foram felizes para sempre. Mas quantas vezes é preciso dizer que a realidade está bem longe disso? (How long must we sing this song?) As vítimas da tortura sofrem até hoje: insónias, pesadelos, depressão, psicoses, ansiedade, etc. E nunca deixarão de sofrer.

Rafael Galego «lamenta que nem a ele nem aos outros ex-presos políticos algum organismo, associação ou entidade tenham alguma vez perguntado se precisavam de apoio. Nunca o teve (...) Aos 63 anos, é um homem revoltado. Os cigarros, um atrás do outro, tremem-lhe na mão. Sorve-os em baforadas nervosas, segurando-os nas pontas dos dedos amarelados pelo fumo».

Joana Pereira Bastos apresenta os factos de maneira imparcial. E, se nos apresenta toda a crueldade da PIDE, também não se coíbe de referir os métodos repressivos que o PCP e outras organizações revolucionárias exerciam sobre os seus membros. Não se perdoava a quem sucumbisse às torturas terríveis e denunciasse algum camarada. Talvez se justificasse, quando a segurança do partido ou da organização dependia do silêncio. Mas que justificação há para isto:

«Os meses que se seguiram à libertação foram, para Conceição Moita, os mais duros. Por ter sucumbido à tortura e falado no interrogatório, os antigos companheiros do Partido Revolucionário do Proletariado e das Brigadas Revolucionárias (PRP/BR) castigaram-na, votando-a ao silêncio e à indiferença, como se nunca a tivessem conhecido. Pura e simplesmente, deixou de existir para eles. Várias vezes pediu para a receberem. Queria relatar-lhes o que acontecera, mas nunca obteve resposta. A intolerância chocou-a. "Foi demasiado violento"».

Não há anjos, nem santos, no nosso dia-a-dia. Os humanos são capazes das piores violências (físicas e psicológicas). E nós, portugueses, não somos exceção. A teoria dos brandos costumes só serve para menorizar e encapotar realidades macabras.

Muito está ainda por dizer, sobre este assunto. E sobre outros, que igualmente nos envergonhariam. Livros destes são importantes, ajudam-nos a conhecer-nos, enquanto povo. Mostram-nos que devemos pensar duas vezes, antes de apontarmos o dedo a alguém.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Jovem hitleriano Ronaldo

por Cristina Torrão, em 06.10.13

Hitler acorda, de repente, num terreno baldio da cidade de Berlim, no ano de 2011. Não sabe onde está, olha à sua volta e vê uns miúdos a jogar à bola. Logo chega à conclusão de que serão membros da juventude hitleriana. Mas estranha que não usem a farda e, sim, equipamentos coloridos. Constata que a mãe de um deles se deu ao trabalho de inscrever o nome do miúdo nas costas da t-shirt. Lê «Ronaldo». E como sente necessidade de saber como pode sair dali, atingindo a rua mais próxima, diz ao miúdo:

«Jovem hitleriano Ronaldo! Em que direção é a rua?»

(Em alemão: Hitlerjunge Ronaldo! Wo geht es zur Straße?).

 

Tudo isto se passa nas primeiras páginas de um best-seller agora chegado a Portugal, com o título Ele Está de Volta.

 

 

Nota: estou a ler a versão alemã e a minha tradução da passagem em questão é livre.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Livros para levar

por Cristina Torrão, em 05.09.13

 

Traduzi à letra a expressão alemã Bücher zum Mitnehmen. Foi isso que o Horst, o meu marido, escreveu na caixa em que depositou uns livros que levou aqui de casa, no seu local de trabalho.

 

Quem gosta de ler, chega sempre a um momento em que já não sabe onde pôr tanto livro. Por outro lado, há livros que sabemos que não voltaremos a ler, ou outros que nem conseguimos acabar. Sei que é difícil desfazermo-nos dos livros. Mas os gostos são diferentes e aquilo que não nos agradou, ou agradou pouco, pode proporcionar bons momentos de leitura a outra pessoa.

 

Há várias maneiras de pôr os livros a circular. Numa das Bibliotecas de Hamburgo, perto do local de trabalho do Horst, até há um local onde se podem deixar livros, que não ficam registados, mas que qualquer pessoa pode levar.

 

O Horst optou por criar um espaço desses no seu local de trabalho. No início, muitos estranharam a ideia: «que quer dizer isto, livros para levar? Quem pôs aqui estes livros? E podemos levá-los assim, sem mais nem menos?» O meu marido explicava pacientemente de que se tratava. E a iniciativa acabou por se tornar um sucesso. Não só os livros quase desaparecem todos, como outros colegas de trabalho começaram a colocar lá os que tinham por casa.

 

Outro dia, o Horst resolveu levar os dois do Dan Brown que possuíamos, o Código da Vinci e Anjos e Demónios. «Não voltamos a ler, pois não?» perguntou-me.

 

Não ficaram muito tempo pousados na caixa com a legenda Bücher zum Mitnehmen ;-)

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Um livro por mês (9)

por Cristina Torrão, em 01.09.13

 

É curioso que, numa altura em que os livros de contos quase desapareceram, o vencedor do Prémio LeYa seja, pelo segundo ano consecutivo, autor de um romance que parece composto por vários contos, ligados por um denominador comum. Em O teu rosto será o último, o denominador comum era uma família; em Debaixo de algum céu, é um prédio onde as personagens habitam.

Lera, noutras opiniões, que o início do romance causa alguma estranheza, devido à quantidade de personagens, mas que, depois de o leitor se habituar, vai gostando cada vez mais. Comigo aconteceu um pouco o contrário: achei interessante saber de várias vidas, logo nas primeiras páginas, mas confesso que me cansou a técnica de andar sempre a saltar de uns apartamentos para os outros. Bem, eu sou suspeita,  prefiro uma obra que se dedique, com profundidade, a uma, duas, ou, no máximo, três personagens (excluindo as secundárias). Mas parece que a diversidade de personagens está na moda, como se os escritores tivessem de provar que são capazes de lidar com uma data delas, ao mesmo tempo.

Não deixa de ser, contudo, interessante obter um retrato de um prédio e dos seus habitantes, vidas melancólicas e marcadas pela rotina, como tantas outras. Dão-se tragédias, mas, para alguns, há um final que se pode apelidar de feliz. Por outro lado, soube-me a pouco, há vidas que mereciam mais desenvolvimento.

O grande trunfo de Nuno Camarneiro é, sem dúvida, a linguagem poética. Mas senti falta de uma certa ironia, por um lado, e de mais secura, por outro. Certos "murros no estômago" parecem ser amortecidos por uma almofada de poesia. As figuras de estilo e as técnicas narrativas repetem-se, tornando a escrita um pouco previsível e monótona. Não sei se será esta a escrita mais aconselhável para um romance.

No seu conjunto, um romance bem à portuguesa: poético, triste e monótono... Como o «estrebuchar dos canos» do prédio em questão.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags: