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O regresso

por Cristina Torrão, em 01.05.15

Fico contente por poder tornar a escrever neste espaço. Espero que o regresso no 1º de Maio seja um bom prenúncio e que o 2711 se revele mais sólido do que os ideais da nossa revolução, que se esfumaram com o tempo.

A propósito, deixo-vos com um excerto de um conto em que estou a trabalhar:

 

«Estava-se no verão de 1976. Mário Soares acabara de tomar posse como Primeiro-Ministro, depois de ganhar as primeiras eleições legislativas. Um conhecido de Leonel tornara-se Secretário de Estado do governo minoritário do PS e, sabendo que ele acabara de se formar, ofereceu-lhe um lugar de assessor.

Leonel não pensara em seguir a carreira política. Se o fizesse, aliás, via-se mais nas fileiras de um partido como a UDP, já que o partido que se formara a partir das Brigadas Revolucionárias se tinha ficado por uma votação irrisória. Seria preciso unir a esquerda que rejeitava o imperialismo soviético, de forma a torná-la uma alternativa credível. Mas Leonel não estava com vontade de se envolver em projetos desses, planeava apenas construir a sua carreira de advogado.

Na verdade, também a integração do amigo no governo PS o surpreendia, um amigo que igualmente andara metido em organizações marxistas-leninistas. O Secretário de Estado cozido de fresco lembrou-lhe, porém, que os tempos revolucionários já tinham passado à História. O futuro estava com Mário Soares e os Socialistas, seria essa a esquerda portuguesa! O PCP jamais alcançaria votação suficiente para ser alternativa de governo, para já não falar da UDP e quejandos.

- Leonelzinho, isto, daqui prá frente, vai ser assim: ou o PS, ou a direita!

Com a ideia de amealhar algum dinheiro, acabou por aceitar o cargo. O governo minoritário, contudo, não se aguentou e, com a dinâmica impressionante adquirida pela AD, Leonel, já se movimentando com à vontade nos meandros da política, acabou por se filiar no PS, a fim de fazer oposição. As eleições que deram a vitória retumbante a Sá Carneiro fizeram-no deputado e ele não mais deixou a Assembleia da República até às europeias de 1989, as primeiras em Portugal, que o catapultaram para Estrasburgo, ganhando mais dinheiro e viajando mais do que algum dia teria imaginado. Tornara-se um burguês!»

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4 comentários

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De João António a 01.05.2015 às 13:08

"Ou és por nós ou contra nós "
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De Cristina Torrão a 05.05.2015 às 16:54

Assim é, João António, "ontem, hoje e amanhã".
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De Daniel João Santos a 01.05.2015 às 13:47

Bom regresso. Texto que promete um bom livro.
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De Cristina Torrão a 05.05.2015 às 16:54

Obrigada, Daniel.

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