Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Escritas contemporâneas - Alice Brito

por António Ganhão, em 29.05.15

O dia em que AB.jpg

 

Têm hoje a Grécia guardadinha no bolso. Fazem o que querem.

A política deixou de existir. Nem tão-pouco existe economia. Hoje, o que existe é uma contabilidade cretina, imbecil, saloia, de merceeiros avaros, taberneiros embebedados pelo odor do lucro. Alguns até avental usam. Falam todos com uma displicência ácida. Dantes enganavam-nos dizendo que o futuro estava aí a chegar. Para o ano. Agora nem isso. Agora rosnam que não temos futuro com a mesma lata com que dantes o anunciavam. Os olhos imperiosos e imperiais são colocados num alvo qualquer, como os medrosos que não olham de frente. O futuro mudou de sítio.

Com estes governos estamos condenados a uma economia leprosa que vai caindo aos bocados. Se esta cáfila não desanda, havemos de ficar sem corpo, nesta gafaria chamada Portugal.

….

O que agora temos já não é a finança tradicional. Dantes, os bancos e banqueiros negociavam entre si uma mercadoria única chamada dinheiro. Eram austeros e distantes. Habitavam um outro mundo feito de cofres e sigilos. Isso já quase acabou. Vivemos agora sob a grande alçada do submundo da finança. Um gigantesco prostíbulo. Sem regras, sem vergonha, sem focinho reconhecível. A agiotagem mais miserável está aí por toda a parte. Sempre foi fanática mas não tinha espaço para uma militância como esta. A pouco e pouco, a galope na globalização aí está ela ao vivo e a cores, a nova finança, desbragada, aluada, perversa, quase anónima.

Um sopro benfazejo de tempo saudável chegaria para banir este tempo perigoso.

 

Citações de O dia em que Estaline encontrou Picasso na biblioteca, de Alice Brito, Planeta, 2015

Por vezes, a voz dos personagens confunde-se com a do narrrador. Talvez se confunda com a visão que a autora tem da vida e nos toque no mais profundo do nosso sentir. Escrita maior, eco dessa dor coletiva de que, um dia, sonhamos ficar livres. São as escritas contemporâneas, urge divulgá-las!

 

Sobre este livro no Das Letras

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)


1 comentário

Imagem de perfil

De anonimodenome a 30.05.2015 às 10:30

subscrevo inteiramente.
o futuro só existe na medida em que enterrarmos este presente putrefacto.
À bruta.

Comentar post