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Ago 12
Por Cristina Torrão, às 18:59 | comentar | favorito

Eu, que costumo publicar aqui histórias de animais, não podia deixar de escrever sobre isto. Embora insista na harmonia entre humanos e animais, de como podemos aprender com eles, de como se podem estabelecer grandes amizades, etc., mostro, apenas, que situações dessas são possíveis e tento contribuir para que sejam cada vez mais possíveis.

 

Os cães não são computadores que se programam como bem entendemos, não têm um botão de ligar e desligar. São seres vivos, com vontade própria e, embora inteligentes, agem muito mais por instinto do que nós, que aprendemos a controlá-los (uns mais do que outros). Porém, pela sua aptidão natural de se submeter a um líder, de precisar de alguém que o oriente, o cão presta-se, mais do que qualquer outro animal, a interagir connosco. Mas é um grande erro pensar que eles são como nós, que agem como nós e que aprendem o mesmo que nós. É um grande erro pensar que os podemos humanizar. Um cão é um cão e uma pessoa é uma pessoa.

 

Neste caso, eu apenas pergunto: o que raio estavam a fazer dois Dogues Argentinos num terraço de apartamento, no centro de uma grande cidade? Infelizmente, há gente que usa os cães (como usam os carros) para mostrar grandeza e importância, para meter medo e intimidar, gente que pensa que cães pequenos não são cães a sério (será que também pensam que pessoas pequenas não são pessoas a sério?). Eu não sei se existem raças potencialmente perigosas, aliás, nem os especialistas chegaram ainda a uma conclusão sobre isso. O que sei é que os cães, em relação ao seu peso, têm muito mais força do que um ser humano. A minha Lucy pesa apenas sete quilos e, se lhe apetecer ir para a direita, enquanto eu quero ir para a esquerda, tenho de usar de muita força na trela para a arrastar. Nenhum ser humano – repito: nenhum – está em condições de medir forças com um cão de grande porte, como um Dogue Argentino.

 

Ter cão não é apenas tê-lo, é preciso educá-lo, aprender a conhecê-lo. É preciso estabelecer uma relação de grande confiança com ele, uma relação em que cão e pessoa se olhem nos olhos e se entendam, sem palavras, nem outros gestos (a propósito, é preciso ter muita confiança num cão para o olhar nos olhos, nunca tentem fazer isso com um cão que não conhecem, mesmo que sejam um Rambo). E, acima de tudo, é preciso deixar-lhe claro quem é o líder. Tudo isto requer tempo – muito tempo – e dedicação e nem toda a gente está disposta a isso, ou tem essa possibilidade. E, normalmente, o facto de existirem dois cães numa casa quer precisamente dizer que as pessoas não dispõem do tempo suficiente para tratar de um e arranjam-lhe um/a companheiro/a, para que não se sinta sozinho. Normalmente, dá para o torto. Um cão, em vez de dois, não tira trabalho. Dá, sim, trabalho a dobrar!

 

Nenhum cão gosta, por natureza, de crianças, é preciso adaptá-los a elas, de preferência, desde o início. Os cães costumam reagir com agressividade aos gritos e aos gestos bruscos das crianças, a não ser, como digo, que sejam criados com elas. É preciso, principalmente, muito cuidado com crianças menores de quatro anos, não só pelo seu tamanho e impotência, mas pelo facto de elas, igualmente, ainda não controlarem os seus instintos. É certo que há cães mais agressivos que outros, cães mais pacientes do que outros, cães mais medrosos do que outros (um cão medroso é sempre um cão agressivo) como há pessoas mais agressivas, mais pacientes e mais medrosas do que outras. Mas não se sabe se essas características dependem da raça.

 

Não posso ajuizar sobre as razões que levaram a esta tragédia. Mas há um bebé morto, há duas famílias desfeitas e há uma criança que nunca superará o trauma de ter visto a irmã pequenina ser morta por um cão. E há um cão que será abatido. Os únicos responsáveis são os donos do cão, que estarão desfeitos, a esta hora. Mas não deixam de ser os responsáveis.

 

Tudo isto me deixa triste. Muito triste.


Excelente texto.
Deve cansar parar um pouco para pensar. O homem não está conseguindo se entender, como saber lidar com animais? Parou de evoluir, não precisa temer o inferno depois de morto.
CAL a 14 de Agosto de 2012 às 21:17

Obrigada.
Felizmente, há quem tente melhorar as coisas. Mas ainda é pouco, muito pouco.

um enorme aplauso para este teu texto.
Daniel Santos a 14 de Agosto de 2012 às 21:26

Obrigada.

No dia em que sejam os donos a levar uma coleira no pescoço, e sejam os cães a passeá-los pela trela, talvez esteja encontrada a solução.
Marão a 14 de Agosto de 2012 às 22:15

É uma maneira de ver a situação, de acentuar a irresponsabilidade de certos donos. Por aqui, quando um cão revela um comportamento inadequado, costuma-se dizer que o problema está no outro extremo da trela.

Há outra moda particularmente perigosa a alastrar pelos lares portugueses: os animais de estimação sem ser cães, como cobras, lagartos, escorpiões, aranhas, até crocodilos. Estes animais têm a particularidade de nem sequer estabelecerem qualquer afinidade com as pessoas. Então, para quê tê-los? Gosto do exótico? Puro exibicionismo?
Quanto aos cães, tem toda a razão, precisam de atenção. E mais: de espaço. É um disparate tê-los em apartamentos. Infelizmente, esta notícia choca temporariamente quem a ouve (a maioria creio que nem se apercebeu...), mas tudo vai continuar na mesma. Até à próxima tragédia.
Mal comparando, é como as piscinas. Quantas crianças já morreram afogadas em Portugal por os seus pais as deixarem sozinhas? Que diabo! Os ingleses (Maddie) não são, infelizmente diferentes de nós. A necessidade de descanso e/ou de diversão é assim tão importante que nos levem a descurar a segurança das nossas crianças?
Eu criei duas filhas e nunca nada disto se passou ou poderia passar com qualquer delas. Pela simples razão de que, a partir do momento em que nasceram, se tornaram, para mim e para a mãe delas, mais importantes do que nós próprios.
O que não significa, claro, que não tenhamos cometido erros...
Simões Pereira a 15 de Agosto de 2012 às 01:35

É difícil de dizer porque há pessoas que mantêm animais exóticos. Algumas estarão em condições de tratar deles, mas a maior parte decerto que não. E é tudo um negócio, há quem ganhe balúrdios com tal contrabando. Uma tristeza! Uma vez li que, nos EUA, o dono de uma cobra se fartou dela, a deitou na sanita e ligou o autoclismo. No outro dia, ela apareceu na sanita de um vizinho.
Nem todos os animais são adequados para viver em apartamentos. No caso dos cães, só se devia ter de raça pequena e, mesmo assim, cuidar para que eles se movimentem o suficiente. Os passeios não servem só para eles fazerem as necessidades.
Facilita-se, não se liga, tudo há-de correr bem... Às vezes, corre mal.

Antes de mais, terei de referir o excelente texto que reflete com clareza a realidade animal que se confunde simultaneamente com a realidade humana e vice-versa. De qualquer das formas, existe uma certeza, assim como as pessoas tudo parte da educação, deste modo os cães que forem tratados com agressividade vão reproduzi la de forma expontanea e irracional, como tem vindo infelizmente a acontecer.
designers a 20 de Agosto de 2012 às 19:57

Um cão de grande porte, com tendências agressivas, é realmente um grande perigo. Mas, como diz, depende muito da educação (ou falta dela), que também pode produzir humanos perigosos...

V.2
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Não sei se é um sábio se um simples guardião do te...
E na faixa do meio...
Também podia ser: "Com estudos e bolos se enganam ...
Sei do que fala, Cristina... Um abraço!
Sabe-se lá, sabe-se lá Cristina...
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